09 de Fevereiro de 2014

A filha dos caras do Tangos e Tragédias

Quando eu estava na escola, diziam que eu era "filha dos caras do Tangos e Tragédias". E olha, não estavam incorretos. 

O Tangos começou quando eu tinha quatro anos. Eu literalmente cresci com eles, a temporada do São Pedro era uma parte tão natural da minha vida quanto os verões em Imbé eram para as outras crianças. Eu corria pelos corredores, eu assistia todos os dias, eu morria de orgulho. Eu sentava no proscênio e esperava minha vez de dançar o Copérnico e ficava magoadíssima quando não era chamada, pois me considerava a primeira bailarina oficial da Sbórnia e precisava brilhar.

Costumo dizer que a Camila, personagem dos meus livros, é filha do Pletzkaya. Dramática e sarcástica, ela sofria como sofria o maestro em suas desventuras de amor. Aliás, é isso que acontece quando se expõe crianças de 4 anos a Vicente Celestino, viu? O drama da vida imita o drama da arte. 

Eu sempre estive lá, então acho que nunca cheguei a realmente dizer o tanto que eu admiro o trabalho que o Nico e o meu pai fizeram, como aquele espetáculo foi mágico, como era lindo, como me surpreende e deleita a capacidade dele de tocar absolutamente todo o tipo de pessoa, como era um imenso gerador de alegria para todos que assistiam com o incrível poder transformador das coisas feitas com o coração, capazes fazer multidões entrarem em catarse. Eu sei todas as letras de todas as músicas há anos, sei todos os timings das piadas, tudo. Faz parte de mim. Faz parte de quem eu sou. E eu nunca pensei que fosse terminar. Esse ano, no dia da estreia, meu pai esqueceu um apetrecho fundamental para o cabelo do Kraunus e eu e minha mãe fomos correndo levar no Theatro. O Nico estava fazendo uns acertos com o Levitan e o Pezão, a Gran Orchestra da Sbornia, já prontos pra entrar no palco. Quando me viu, largou o acordeon e me deu um abraço tão apertado e querido que eu quis ficar para ver o espetáculo mais uma vez. Pensei: ah, depois eu vejo. Vai ter sempre. O Tangos nunca vai acabar. 

E não vai mesmo. O Tangos e Tragédias está eternizado no coração de cada um que viu, de cada um que conheceu, de cada um que, nesses 30 anos, saiu cheio de alegria daquele e de outros teatros pelo Brasil e pelo mundo. Agora cabe a nós espalhar e registrar ainda mais a genialidade desse espetáculo que deixou tocou tanta gente. 

Obrigada, Nico, por tudo. 

A música nunca vai morrer.


Clara Averbuck é escritora

Instagram

  • Twitter
  • Facebook
  • RSS

Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*