12 de Junho de 2013

Amanhã vai ser maior - por @marimessias

Mudei para SP faz umas duas semanas e meus amigos paulistas já riem da minha cara porque eu fiquei malzão e sem voz por dias, depois de respirar gás lacrimogênio. 

Diga-se, quando isso ocorreu eu nem imaginava que aquilo fosse gás tóxico, simplesmente por não fazer sentido, não tinha rolado nenhum comportamento ilegal ou escroto, não teve um pré combate com a PM, foi uma agressão (depois outra e outra, até a exaustão e desmoralização dos manifestantes). 

E funcionou comigo. Eu estava morando aqui fazia uma semana, sequer sabia onde estava (ainda não sei que ruas eram aquelas) e, como a maioria das pessoas, não curto sentir dor, incapacidade respiratória ou sofrer terrorismo psicológico.

Não que eu nunca tenha tido contato com violência abusiva, armas menos letais ou posturas babacas de autoridades policiais, só me recuso a achar isso normal. 

Primeiro porque me recuso a perder o foco, o que seria bem bom pra todo mundo, menos pra mim. O Estado ficaria felizão com a aparente normalidade das ruas, mesmo diante de todos os seus desmandos, ninguém me ofenderia de desocupada e baderneira e eu poderia me unir ao pessoal que acha que protesto é ir no TED, ou vestir preto ou abraçar a Lagoa. Mas não, eu sei que protesto é, como disse o Gasparetti, greve de cidadão. E nós temos um cenário bem maior para fazer greve, para debater e para evoluir como nação.

Por exemplo: Porto Alegre, Goiânia, São Paulo e Rio de Janeiro estão nos dizendo que não aceitarão mais um sistema de transporte público sucateado e caro. Em Florianópolis o Sindicato dos motoristas e cobradores está propondo uma greve ao contrário, onde toda a frota circularia, mas com catraca livre. Eles não querem aumento de passagens, querem que esse dinheiro seja investido na melhoria da sua condição de trabalho, incluindo seus salários.

Será que ainda tem como ignorar essa insatisfação?

Segundo, me recuso a achar isso normal e acabar vivendo essa situação cotidianamente até acreditar que só ela existe. Se toda semana um policial me tocar uma bomba na cabeça e eu achar isso normal, vou acabar acreditando que o problema são os policiais, feito muitos policiais acreditam que o problema sou eu. Mas não. Eu e esse cara que me intimida e agride (até por ter apoio do Estado para isso) temos mai$$ em comum que ele consegue lembrar. E eu não quero esquecer isso, só por não concordar com as posições dele.

Terceiro, me recuso a achar isso normal porque não é. O que vou dizer agora não é uma verdade incrível sobre a cidade de Porto Alegre, que é um lugar onde muita gente votou em um prefeito que diz que Jesus é quem governa a cidade e que diminui parques e corta árvores para aumentar estradas e com um vice que diz que violência policial é algo democrático. O que vou dizer vem da consciência de que isso não é normal. Fim. 

Em Porto Alegre as maiores manifestações rolaram sempre depois de protestos onde ocorreu abuso policial e o Estado lavou as mãos. Por que? 

Porque não é normal violência e abuso policial em uma manifestação legal. Porque se ninguém se responsabiliza por nossa idoneidade física, nós temos que fazer.

Porque nós temos que dizer que o senhor Governador e o senhor Prefeito (e o senhor promotor) que esse comportamento tem grandes chances de fazer com que eles percam seus empregos. 

Especialmente em SP, onde o prefeito deve sua eleição, claramente, a boa parte desses mesmos manifestantes.

E temos que levar amigos, conhecidos e aumentar o prisma de pessoas que não aceitam esse tipo de comportamento, que sabem que a linha entre democracia e desmande fascista é muito tênue. 

Quanto mais gente tiver, mais difícil é que um jornalista seja preso SEM DIREITO A FIANÇA por proteger outras pessoas do espancamento. 

E que se tu conseguir levar mais 3 amigos, serão mais três famílias que saberão que ação policial não é exatamente como está passando na TV. Que violência e intimidação contra cidadãos simplesmente não é normal, é ilegal e, não, ninguém pediu por isso.

E se tu levar mais 5 amigos, os amigos de todos eles poderão dizer: caralho, meu amigo foi lá, estava de boa e apanhou, eu tenho medo que seja comigo depois, preciso fazer algo pra lembrar os governantes que isso não é normal.

Quando me mudei para SP, admito, não estava muito feliz com isso. Mas, incrivelmente, nesse processo violento e confuso, tenho aceitado que essa é a minha cidade, agora. Uma cidade imensa, com um grupo imenso de pessoas que não aceitam o absurdo como normal.

Uma cidade onde quinta vai ser maior, comigo, contigo, com nossos amigos, no Teatro Municipal, às 17h.
 
---- Mari Messias

Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*