03 de Maio de 2012

as casas que eu tenho tido

nunca mais dormi em casa. nem parece que eu ainda tenho, de fato, uma casa.

ainda bem que tem a lindalva pra cuidar dos gatos, ainda bem que tem o saico pra cuidar de tudo.

primeiro era lá; agora, aqui.

lá eu vivia a iminência de desastre embebida em felicidade plena. tudo desregrado, tudo bagunçado e barulhento, os horários e os cobertores revirados pos nós, a todas as horas do dia e da noite. era isso, era lindo, era bom.

aqui eu cuido do meu amigo, meu melhor amigo, que precisa de mim. silêncio e horizonte, horários anotados e tudo bem baixinho. é aqui que eu vou estar nos próximos dias todos, até que ele melhore, até que ele volte a ser cheio de vida. já me xinga, ele, dizendo que não me agüenta mais medindo sua temperatura de duas em duas horas e perguntando se tem fome, sede, se quer algo.

eu sei, eu sei, sou uma chata. mas só por amor.

a dimensão das coisas importantes muda todas as perspectivas.

não que o coração seja desimportante; não é, especialmente quando acaba de voltar a bater.

(aqui, o meu esmurra as costelas e diz "ô puta, foi pra isso que você me acordou? que maçada!")

são amores diferentes, apenas.

agora é isso: ele precisa de mim, e aqui estou. either in sickness or in health, eu não largo essa mão.

<3

c.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*