22 de Maio de 2009

As torturas da memória de um amor perdido


Eu não acredito mais em amor. De novo. Porque quando acho que está tudo indo bem e eu recobrando os sentidos escuto um "eu não gosto mais de você". Não, desculpe, a frase exata foi : “eu te amo para caralho mas eu não gosto mais de você". Todos hão de convir comigo que é uma frase um tanto esquizofrênica, mas oquei, o rapaz em questão nunca está em perfeito juízo e que a situação ali era anormal, ele já havia saído de casa e estava ali apenas cuidando de mim e do meu pé, do qual falarei mais tarde. Ele se foi de repente por não agüentar um período de loucura meu, causado, vou jogar bem a culpa porque é verdade, por ele e por substâncias ilícitas combinados por longos períodos, além de situações pesadas e outras mandingas que você não quer saber. O pobre moço suportou não só minhas loucuras como as alheias e mais a minha filha de cinco anos fazendo manha e gritando e os cinco gatos. Também não era tão dramático assim. Haviam dias de paz e harmonia que eu nunca vou esquecer. Como minha filha chegando da escola e correndo para abraçá-lo de cuequinhas e tocando violão na frente da televisão. Talvez alguns entendam, mas eu, sempre tola e romântica, achei que todas as outras coisas que tínhamos eram maiores do que tudo. As fodas. Os momentos de silêncio. A música. Os pertinhos. O Amor. Rá. E eu achando que diferença de idade é bobagem. Quer dizer, continuo achando, mas em alguns casos, onde uma pessoa viveu muito mais do que a outra, a diferença de idade grita no seu ouvido como uma velha mendiga louca que você ignora até perceber que ela está certa. Ele precisa viver mais, então que assim seja.




Quando ele disse "eu te amo pra caralho mas não gosto de você" estávamos deitados na cama que comprei porque ele escolheu, e fiz isso depois que ele já tinha saído de casa de mochilinha e sumido por dez dias, me deixando sem chão sozinha no escuro. Porque eu, de novo tola e romântica, achava que ele voltaria. Mas ele não voltou. Um, dois, três dias se passaram. Eu ainda achando que ele precisava de um tempo e voltaria para a casinha que montei para nós. Quatro dias, cinco. Dez. Não dormia – como se dorme sozinha em uma cama de casal ainda com fluidos corporais? Parei de comer. Perdi doze quilos. Chorava a todas as horas do dia e da noite e via minha sanidade, frágil, escorrendo nas lágrimas. Enlouqueci. Achei que a loucura não teria volta. Quase perdi meu emprego, não conseguia escrever, não conseguia viver, só conseguia enlouquecer. E pular a cada vez que ouvia um barulho no corredor achando que era ele, só podia ser ele. Louca. Como diria Fiona Apple, “Oh, he made my blood just burn / I flipped so far / I thought that I would not return”. Pouparei todos dos detalhes sórdidos desses dias, tanto do meu lado quanto do dele. Só sei que a vida era insuportável.


Aí ele apareceu. E conversamos a noite inteira, ouvimos música a noite inteira, olhamos nos olhos até às nove da manhã quando ele se foi, colocou a mão no meu rosto e disse: “vai ficar tudo bem”. Eu, mais uma vez tola, acreditei e ainda por cima entendi errado, porque ele estava se referindo à música, não a nós. Nós, para ele, havia se esvaído. Ou melhor: virado música.




Com o passar dos dias as coisas foram mudando. Ele aparecia e trepávamos como nunca ninguém trepou. Fazíamos as mesmas coisas que fazíamos antes. Às vezes ele ficava, às vezes voltava para a casa dos amigos onde estava acampado com suas caixas – que eu mesma empacotei com muito ódio e mágoa depois de uma briga com o mais baixo tipo de xingamento em capslock – e eu achava que tudo ia ficar bem. Estava ficando. As coisas lentamente voltavam ao lugar e eu achava - e acho - que o lugar dele é bem aqui ao meu lado.


Então ele foi tocar numa festinha e eu, já no final, passando por uma sala sem luz com um degrau no escuro, tive uma entorse no pé. Não uma entorsezinha, uma entorse envolvendo sola do pé para cima e onde depois de um tempo havia uma bola de golfe debaixo da minha pele. Ainda bem que eu tinha me entorpecido, ou a dor da hora seria insuportável. Saí carregada pelo segurança, o Zé, um negão de 2,06 metros de altura e tive a impressão que todos achavam que era só mais uma bêbada. Enquanto passava o entorpecimento, meu pé inchava. Até que a dor fez chegar a hora de ir ao hospital. A história do convênio é um capítulo à parte, o que importa é que cheguei lá e fui atendida prontamente por um médico meio bundão que não estava entendendo a minha dor. Médicos nunca entendem. Eles vêem amputações e peitos abertos, não era aquele meu pé que comoveria um médico bundão. Mas ele ganhou uns pontos quando mandou me darem uma injeção de morfina no traseiro. Queria morfina todos os dias enquanto este maldito pé doer. Isso tudo com ele junto. Ele mesmo, aquele que me ama pra caralho mas não gosta mais de mim. Solícito, carinhoso, me beijando, limpando minhas lágrimas de dor. Sofri no raio-x quando viravam meu pé para lá e para cá, não havia fratura, peguei minha receita de uns analgésicos ridículos que não servem nem para dor nas costas e viemos para casa. Veja bem, ambos chamavam este lugar de casa. Nunca foi mencionado “a sua casa”. Porque essa casa é nossa, a cama é nossa, as paredes azuis são nossas, a mesa e as plantinhas e o sofá são nossos, a parede dourada do quarto é nossa. Eu quando sozinha fico trancada no quarto por simplesmente não suportar a idéia de que esta casa morreu. Mas agora é a minha casa só e eu vou ter que dar um jeito de torná-la minha. Ou vai continuar sendo a nossa casa de uma maneira estranha. Preciso de vida. Nunca mais colocar a vida na mão dos outros.


Ele esteve cuidando de mim este tempo todo que fiquei sem andar ou me desequilibrando de muletas na paulista e caindo de quatro. Tudo parecia ter voltado ao normal. Não, não tudo. Havia alguma coisa estranha. Era ele. Ele não se sentia mais bem em casa. Quer dizer, às vezes sim, às vezes não, disse ele. Mas eu não sabia e achei que era apenas a estranheza da ausência de quase dois meses que causava a estranheza. Éramos um casal normal, na nossa casa normal, ele cuidadando de mim primorosamente. Até que ontem veio a revelação: ele me ama pra caralho mas não gosta de mim. Chorei de novo, não agüento mais chorar, odeio chorar. Depois pensei. Será que eu não sinto a mesma coisa? Amor sem paixão, como Arturo na praia com Camila? Ou paixão sem amor? Não sei ainda. Sei que o amo para caralho, sem dúvida. E sei que hoje vou ao Doutor Apocalypse (eu juro que ele existe, tenho provas) para tirar a tala e ver o que acontece. O que mais me preocupa não é o meu pé. É ele aqui mais tempo me amando pra caralho mas não gostando de mim. Acho que ele ainda não sabe que, em um relacionamento onde as pessoas moram juntas, sempre vai ter aquele momento no qual você quer esgoelar a pessoa que divide a cama e as contas com você. O Amor é assim, o com A maiúsculo. Quando passa a cegueira da paixão e as manias do outro aparecem, é como um teste: ou era amorzinho, ou Amor.


Não posso ficar sozinha, é fato, porque sou um desastre andando de muletas e vou acabar estragando o outro pé ou qualquer outra parte do corpo. Então não sei. Agora, faltando cinco dias para eu virar balzaquiana (céus, como vou odiar virar balzaquiana de muletas), só sei esse poeminha aí que escrevi ontem antes de dormir – com o canal lacrimal descontrolado.


amor vencido


tomara


que amanhã eu sare


tomara, tomara


que amanhã eu caminhe normalmente nas ruas


sem depender de apoio ou equilíbrio


tomara


que amanhã eu sare


e acabe essa ilusão de felicidade cobrindo a solidão


que corrói a casa sem piedade


amor de mentira


com gosto de passado - dizem que teve um funeral de três dias


e agora acaba com tudo que foi lindo.


a dor não passa nem com muitos remédios


e os médicos e as enfermeiras


porque este coração


não volta mais


a bater.


(18 de maio, pé enfaixado e curando da dependência)


Ou posso citar a Fiona, a quem vivo recorrendo:


So I say "and on I go"


To another one who disappoint me so.


.


.


.


Um dia se passou e agora já sei. Doutor Apocalypse (já disse, ele existe) falou que meu tendão de aquiles está inflamado, que a tala mal colocada ajudou a cagada toda e que se meu pé continuar doendo tanto vou precisar engessar. Mais dias de faixas no pé, muletas do inferno, meu aniversário de balzaca sentada e aquele que me ama para caralho mas não gosta mais de mim indo comprar ingredientes para cozinhar deliciosamente e brigando comigo quando encosto o pé no chão, saindo e batendo a porta, um casal de velhos sem saber o que fazer com isso tudo. Se fosse pouco era fácil de terminar.


Mas o que eu queria ouvir, mesmo sabendo que é mentira da grossa, como todas as músicas de Amor, era o Ray Charles mandando:


I'm gonna love you, like no one's loved you


Come rain or come shine


High as a mountain, deep as a river


Come rain or come shine


I guess when you met me


It was just one of those things


But don't you ever bet me


'Cause I'm gonna be true if you let me


You're gonna love me, like no one's loved me


Come rain or come shine


Happy together, unhappy together


Now won't that be just fine


The days may be cloudy or sunny


We're in or out of the money


But I'm with you always


I'm with you rain or shine


(E a quem questionar o título... Recomendo Peanuts. É bastante esclarecedor.)


.
.
.


Bom, ele se foi. Mas parece que tudo mudou. Tivemos uma noite de música, bebida e festa em casa, Ruth Brown, Ray Charles (quando cheguei em casa ele já tirado e estava tocando Come Rain or Come Shine – eu nem pedi) e até o Pitah ele tirou pra gente tocar. Nenhum clima pesado, nada de ruim, parecia apenas mais uma das noites que tínhamos antes da merda toda. E eu acho que ainda teremos várias dessas, aqui, lá, onde for. Depois fomos para a cama e puta que pariu. Dormimos de manhã exaustos, acordamos à tarde e ele se foi para sua nova casa. Tempo, sempre. E nada mais. Ah, e eu acredito em Amor. Amor e tempo.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*