03 de Agosto de 2010

bem baixinho

todos os dias eu espero chegar em casa e te encontrar sentado na porta do prédio - você não tem mais a chave - após a epifania de que em todos esses anos só existiu você. todos os dias penso, enquanto seguro aquela mãozinha, nos dias você segurava a outra mãozinha e nós desfilávamos felicidade pelas ruas. todos os dias eu penso nos dias em que você sabia. agora você sabe, não sabe que sabe, sabe que não sabe e deixa escorrer palavras alheias pelos lábios incertos. telefona no fim da madrugada, aparece com aqueles olhos diz tudo que quero ouvir sem avisar mas finalmente com palavras suas. depois cai o dia e o esquecimento e voltamos à vida de pingue-pongue, aqui-e-lá com a única certeza da distância da sanidade. um dia desses, duvido, talvez eu não atenda o telefone e me entregue finalmente à presença da solidão, chutando a ausência para nunca mais voltar. duvido.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*