14 de Dezembro de 2010

brazileira!preta, aquela folia

eu tinha 22 anos, nenhuma fé na humanidade e usava maiúsculas.
pouco mudou.
apenas um pouco de saudosismo pra vocês - meus 12 leitores.

Segunda-feira, Dezembro 24, 2001

Barbie is a Slut

Eu não gosto de Natal. Não é que eu odeie ou tenha algum problema ideológico com a coisa toda; eu simplesmente não ligo. Shallow be thy game. É legal ganhar presentes, todos gostamos de ganhar presentes porque somos fucking materialistas. Então eu gosto de ganhar presentes e tudo, mas eu não gosto de peru. Perus são simpáticos demais para serem comidos. Vaquinhas também são simpáticas e ruminantes e fazem moo. Galinhas são burras. Eu estou com sono, muito sono, mas preciso cumprir minha palavra. Peixes são mongas.

E eu não fico mais simpática no Natal. Nem penso em perdoar aqueles que me têm ofendido. Eu simplesmente não ligo. Não ligo, mas é impossível ignorar os velhinhos tendo problemas de pressão porque usam roupa de neve no calor do inferno. Velhinhos suando em roupas estúpidas vermelhas para ganhar uns trocados depois de enganar uma tonelada de crianças ranhentas que querem bicicletas e robozinhos e jogos e sei lá eu o que as crianças querem hoje em dia. Eu provavelmente ia querer uma Barbie, mesmo sabendo sobre os homens cinzentos e suas conspirações para transformar as criancinhas em bonecas sem mamilos, sem pentelhos e com um sorriso débil e constante. Isso lá no começo dos anos 80, quando eu era criança e as pessoas dançavam com a parede. Agora que sou de idade eu ficaria feliz com um ventilador porque meu quarto é muito, muito quente. Ficaria feliz também com um remédio milagroso que emagrecesse 15 quilos em 15 minutos para que eu voltasse a caber nas minhas roupas. Barbie is a slut.

Eu não gosto de árvores de plástico (muito menos de pinheirinhos de verdade, coitadinhos), nem de luzinhas, nem de renas, nem de parentes que eu nem sei direito o que são meus afinal de contas me chamando pelo diminutivo. Eu também não gosto de spams de Natal com mensagens pesadas cheias de fotos ou leves demais cheias de bobagens impensadas. As pesadas demoram mais para baixar, mas as leves demais são mais difíceis de digerir. De qualquer forma, eu não ligo.

Pode-se dizer que champagne é um ponto positivo das festas de fim de ano. Nem sei se tem champagne no natal ou só no Reveillon.
Reveillon é legal, a rapeize bebe e bebe e bebe e cai na piscina e afoga a dignidade com uma gravata na testa e acorda de ressaca no primeiro dia do ano. Se aquele negócio de primeira impressão fosse verdade, o ano teria uma péssima imagem nossa. Ano novo, resoluções, yada yada. Poxa, eu tinha resoluções de ano novo. Deixa eu ir ali ver quais eram.

............................................... voltei.

É, eu aparentemente cumpri algumas, como não perder shows e ver meus amigos espalhados pelo Brasil, e ignorei outras, como ir para Los Angeles e fazer exercícios e deixar o cabelo crescer e ver todos os filmes do Woody Allen e reclamar menos. Hoje estou com 78 anos e sofro da gota e reclamo. O tempo todo. Então, excepcionalmente, às 5’30 da manhã, decidi criar um Alternate Christmas. O nome é em inglês porque soa melhor e porque eu sou uma maldita americanizada que gosta de música em inglês e quer morar em NY mesmo com a pilha de destroços. O caos é bem mais divertido do que a inércia, que também é o nome de uma bebida com licor de pêssego e vódega. Mas eu estava falando do Alternate Christmas. Selecionei três opções de Natal não-convencional. Na verdade, foram as três primeiras coisas que pensei, porque já são 5’55 do dia 24 de dezembro e o sono piora e todas as senhoras do lar já devem estar despertando para buscar suas encomendas. Então vamos logo com isso:

1. Natal com Fome

Esta idéia é chupada de um amigo meu. Não sei exatamente o que ele pretendia (aparentemente: nada), mas minha sugestão é que todos fiquem o dia inteiro sem comer e de noite mandem ver numa pinga sarada, vão para alguma festa, queimem o filme e acabem a noite passando mal. Se você está sem idéias para encher a cara, saiba que acabo de criar um drink de Natal: Vodka com licor de cereja e leite condensado. Eu só idealizei, não cheguei a provar. Ainda não tentem em casa, crianças. E se tentarem não venham choramingar nos meus ouvidos. O nome do drink será White Stripes. É, eu gosto. E eles usam as cores do Natal da coca-cola, então está tudo no lugar. Voltando ao Natal, mande ver no goró de estômago vazio. Você vai acordar no dia 25 sem lembrar de nada, talvez tenha alguns flashbacks desconexos envolvendo cuspidoras de fogo vestidas de rena. Não atenda telefonemas pelos próximos dois dias e negue todas as acusações alegando que estava na casa de seus pais no interior.

2. Natal Filantrópico

Se você não pretende passar fome e não tem saco de aturar seus priminhos mimados correndo pela casa da sua tia de Anta Gorda (não, a tia não usa fantasias no Natal. Anta Gorda é uma cidade. Eu sei, eu sei), você pode usar toda a cara de pau que todos nós temos e bater na porta de algum amigo seu às 23h30min dizendo que não teve dinheiro para visitar os parentes e estava se sentindo muito sozinho em casa porque todo mundo foi viajar etc. Vamos lá, eu sei que você consegue criar um drama bem convincente. Então o seu amigo vai ficar com pena e chamar os pais e os avós e a avó vai ficar com mais pena ainda e vai fazer aquele pratão de comida para você, que vai acabar a noite contando piadas para os tios bonachões do seu amigo. A família inteira vai te achar um rapaz muito simpático e você pode até ter chances de dar uns pegas naquela priminha pós-adolescente gostosa do seu amigo. Em tempo, filantrópico vem do verbo “filar”, que significa pegar algo descaradamente sem pedir permissão. O que pode servir para a prima ou para o peru.

3. Natal There Goes The Neighborhood

Se todos os seus amigos estiverem viajando e/ou você for um mariquinhas para álcool e não gostou de nenhuma das alternativas anteriores, resta apelar aos vizinhos. O método é o mesmo usado com o amigo, mas a sua atuação vai ter que ser muito mais convincente. Afinal, trata-se do cara que sabe de todos os seus podres, apesar de fingir que não sabe de nada. Ele sabe. Tudo. Ele sabe da sua ex-namorada louca que jogou miúdos de frango na sua janela (“Galinha!”) ao descobrir que você tinha uma suplente. Ele sabe que você canta (mal) no chuveiro porque as janelas dos banheiros são grudadas. Ele sabe que você fica pelado na internet com fones de ouvido enormes mexendo em alguma coisa no seu colo (na verdade é um joystick, mas ele não pode saber de tudo, não é?). Então, prepare-se. Será uma tarefa árdua convencer o vizinho a te deixar entrar e é capaz dele fazer cara feia se você tocar nas uvas sem lavar as mãos. Não tente comer a prima dele. Não é legal ter inimigos no seu próprio corredor.

Então tá. Agora minha criatividade se esgotou e eu estou com os olhos semicerrados e secos. É provável que os seus também estejam. Então eu vou dormir e tentar acordar antes que todas as mercearias, padarias e afins tenham fechado para comprar água, massa de pizza, molho pronto e queijo para minha ceia de Natal. Pretendo estar conectada à meia noite, ouvindo Stooges e Strokes e sendo nerd em algum canal do IRC – provavelmente na Dalnet, já que por aqui todo mundo vai estar engomadinho na casa da avó.

Isso, claro, se não seguirem meus conselhos.

Eu não seguiria.


Clara Averbuck é escritora

Instagram

  • Twitter
  • Facebook
  • RSS

Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*