28 de Maio de 2011

Cafeína, meu amor

30 sofridos dias sem cafeína

Tudo começou no twitter. Um dia, como piada, tuitei para uma amiga: imagina ficar um mês sem café? Rimos. Rimos muito, com a mão no peito e a cabeça jogada para trás. Outros riram também. Sem café, que absurdo. Devo frisar que todos são jornalistas – e todo jornalista é um cafeinômano. Quem trabalha com o intelecto normalmente riria alto com a cabeça jogada para trás diante de tal possibilidade: uma vida sem café, logo, sem cafeína. Eu, como tenho mania de superação, resolvi transformar a piada em pauta. E parei no dia seguinte. Já me desvencilhei de vícios bem mais pesados (amor, por exemplo) e pensei que café seria uma grande barbada. Minha teoria era que vício por cafeína – ou café, mais especificamente – talvez fosse psicológico. Um descafeinado resolveria. Imagina. Viciada, eu.

Maior erro da minha vida. Durante os trinta dias que se seguiram eu diariamente amaldiçoei o momento em que tive a idéia, o fato do editor ter aceitado e checava a megasena para ver se teria que continuar com aquilo mesmo ou poderia mudar para o Havaí e nunca mais pensar em pautas enquanto meio de sobrevivência. Mas não. A megasena acumulada foi toda para uma só pessoa (tem que ver isso, hein) e eu continuava sem café. Antes da Saga achei que apenas os primeiros dias fossem um pouco difíceis. Fui surpreendida por uma das maiores crises de abstinência da minha existência. Cafeína, amigos e amigas, é droga pesada.

“Substitui por guaraná”, diziam.

Guaraná tem cafeína.

“Troca por chá verde então, supersaudável!”

Chá verde tem cafeína.

“E chá branco?”

Chá branco tem a maior concentração de cafeína da história dos chás.

“Toma uma coca!”

Coca-cola tem cafeína.

“Toma um mate, tchê!” (imitação barata do que sobrou do meu sotaque gaúcho)

Olha: erva-mate tem cafeína.

“Então toma um Toddy mesmo!”

Chocolate tem cafeína.

Quer dizer. Me vi restrita aos chás de hortelã, capim-cidreira, camomila e outros cujo nome é tão abominável quanto o gosto. Nem um chocolatinho para trazer alguma alegria ao coração. Nada. “Não vivo sem” jamais será pronunciado em vão novamente. E começaram os sintomas da reabilitação, digo, desintoxicação.

Sono

Nas primeiras duas semanas demorei até três horas para sair da cama. Três horas inteiras de lenga-lenga. Não podia pensar “chega, vou sair desta cama e fazer um café”. E “Chega” não era o suficiente. A leseira era mais forte. Acordava e dormia, os olhos fechavam sozinhos, o corpo completamente mole. O coração morrendo de preguiça de bombear sangue para todas aqueles dutos. “E minha cafeína?, pensava ele. Eu também. E minha cafeína? Maldita idéia etc. E fechavam-se as pálpebras.

O fato de eu amaldiçoar a idéia, o editor, a vizinha, o cara da pizzaria da frente e o semáforo da Consolação devia-se, além da leseira e da falta de vontade de viver, ao item II:

Humor

Mau-humor. Simples assim. Irritabilidade. Falta de paciência com meus gatos, o trânsito, o carteiro e a internet lenta, o zelador, minha pobre filha linda e amável, o pai dela, o outro lá, a outra aqui, a máquina de cartão do posto de gasolina e a música alta em carros e celulares de outrem, além de assuntos que não me interessavam quando eventualmente esquecia os fones de ouvido. Ódio profundo e sentimentos incendiários. Mais mau-humor no item III:

Dor-de-cabeça

Vá até seu armário de remédios. Leia a bula dos remédios para dor-de-cabeça. Todos contém o quê? Cafeína. Cafeína, meu amor. Dores insuportáveis por sua falta, que idéia foi essa de te abandonar? Dores insuportáveis. Tentativas falhas de substituição. Ibuprofeno: funciona em grandes doses. Mas apenas para dor, nada de bálsamo para os outros sintomas. A dor-de-cabeça veio aliada à falta de concentração:

Falta de concentração

Sempre fui uma moça multitarefas, vida (quase) inteira lidei com redes sociais e programinhas de chat. Trabalhava normalmente, às vezes até inspirada por toda a comunicação internética. Quem disse? Não mais. Mal conseguia lidar com um de cada vez, que dirá trabalhar. Demorei três semanas para escrever um texto que levaria no máximo dois dias. Reli e revisei mil vezes e ainda mandei três correções para a editora. Expliquei: estou sem café. Imaginava todos pensando “mas que desculpinha, hein, Dona Clara” (considerando que exista algum editor que não seja cafeinômano) e tinha vontade de dizer “acha que é fácil? FAZ VOCÊ então”. Duvido que alguém saísse ileso. Escrevi barbaridades. Mesmo depois de achar que tinha revisado, relia e encontrava alguma barbaridade. Cometi textos inenarráveis. Ainda bem que não estava completamente desligada e consegui perceber a tempo (ou antes que os editores percebessem e eu ficasse desempregada para sempre).

Insônia

Se eu não conseguia acordar, quem disse que conseguia dormir (ou vice-versa, foram dias confusos)? Tentei contar todos os tipos de animais, juntos e separados. Tentei chazinho de camomila. Tentei de tudo. Nada funcionava. Antes eu já sofria de insônia. Agora ela vinha acompanhada de:

Paranóia

Já teve? Já ouviu sons no silêncio? Já se sentiu perseguido? Já se incomodou com a vizinha de 78 anos levantando da cama no meio da noite como se houvesse um tablado de flamenco no andar de cima?Não? Então não pare com a cafeína.

(Não mencionarei os pedesadelos diários. Grata pela compreensão.)

A quase desistência

No meio da terceira semana eu quase me rendi. Dizia: acho que vou sucumbir. Isso não é vida. Não consigo trabalhar. Não consigo acordar. Não consigo dormir. Não consigo ler. Não consigo pensar. Meu sistema digestivo protesta. Ouço coisas que não queria. Estou engordando. Meu metabolismo morreu. Sucumbirei. Mas Nossa Senhora da Cafeína me confortou e disse: “calma, minha querida, são apenas mais alguns dias. Depois você poderá se esbaldar para todo sempre”. Quer dizer, eu já estava entrando em delírio, vendo santa, quase fazendo promessa. Nunca tive problemas de gastrite por causa de café. Passei a sentir certo mal-estar. Seria uma anti-gastrite? Seria simples síndrome de abstinência? E aquele sono, não ia embora nunca mais? Recorri ao ginseng. Funcionou muito pouco e me deu azia. Ginseng do bom é o coreano (panax ginseng); esse tinha pouco e não achei mais. Me restou a recorrer ao panax quinquefolius banal, encontrado em qualquer farmácia e cultivado nos Estados Unidos. Mas já era tarde: meu corpo estava revoltado, nada funcionava e eu sonhava com café. Acho que até esquizofrenia olfativa eu tive. E olha que cafeína nem cheiro tem.

A volta

Não preciso narrar o sofrimento além disso. Naquela penúria física e mental, contava os dias para poder voltar ao meu vício. Queria minha vida de volta. Parece um exagero sem fim, todo mundo acha que pode, não é? Só um cafezinho. Faz você. Fica sem. Eu consegui. E no trigésimo-primeiro dia acordei em fúria. “ME DÁ UM CAFÉ” era meu único e solitário pensamento. Peguei meu computador e fui trabalhar em um café. Literalmente enchi a cara. Não devia. Meu corpo já estava desacostumando daquele tanto de café. Entrei em mania. Fiquei confusa. Tive azia. Parecia que era a primeira vez que tomava um café na vida. Fiquei alterada. É um estimulante, afinal. Muito louca. De café. Sim, é possível.

Os fatos

Sim, a cafeína é droga. Sim, ela vicia. Sim, é pesada. Um espresso, forma de preparo com maior concentração, leva gramas de 30 a 50 miligramas. A dose letal é 10 gramas. Cafeína não tem gosto e nem cheiro. Café descafeinado não funciona nem como substituto – pelo menos quando você sabe que é descafeinado, como foi o caso desta que vos escreve. Não havia placebo: eu precisava saber se havia ou não cafeína. Talvez em um próximo experimento me contradiga. De qualquer maneira, alguém bebe café descafeinado? (Sim, 1% dos brasileiros e até 20% dos americanos) O sabor não é desculpa; a torra e processos químicos que matam a cafeína comprometem o sabor. Posso pensar em doze metáforas, uma pior do que a outra, que não me explicam o hábito. Até aí é uma questão de gosto. Mas café (leia-se cafeína) não é só um gosto ou um hábito, como cheguei a suspeitar antes dos meus dias de abstêmia; é um vício, como qualquer outra droga, com a diferença de que pode ser comprado na padaria da esquina por um punhado de moedas. Assim como o álcool. Mas aí são outros trinta dias.

(Originalmente escrito para a Vida Simples, em setembro de 2010)


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*