17 de Fevereiro de 2013

Defy Gravity

Pois eu estava em Londres. 

Que cidade, que cidade. A última vez que tinha viajado foi no longínquo ano de 2008, quando estive lá para lançar a tradução do Vida de Gato, Cat Life. Naquela época a vida era confusa, eu estava um pouco maluca e quase tive um treco quando voltei. Porque eu não queria voltar. Nunca mais. Londres me acolheu como eu jamais havia sido acolhida em minha vida. Começando pela senhorinha da imigração, que sorriu quando eu disse o que estava indo fazer lá, fez piadinhas com a contracapa (uh, sassy!) e me desejou sorte, passando por todo o público que encheu o pub, público de locais que foram lá realmente para comprar (e ler!) o livro, até o representante da British Library que foi lá apertar a minha mão e dizer que eles estavam muito felizes de ter o meu livro entre os deles. Enquanto aqui eu digo que escrevo e tenho que ouvir "tá, mas o que você faz?", como se escrever não valesse, fosse um hobby, uma coisinha à toa. 

Dessa vez não foi diferente. A moça da imigração viu minha profissão no formulário e começou a me dizer como gostaria de escrever, pois sua imaginação era muito fértil, e anotou meu nome pra procurar o livro (!), e sorriu, e me deus boas-vindas, e eu entrei. Pode parecer bobagem, mas me sinto abraçada quando alguém dá valor ao que eu faço. Faço. E sabe separar do que eu sou. Estou acostumada a ver muita gente confundindo vida pessoal com produção artística/literária/jornalística; não acontece só comigo. Pessoa não gosta de como fulana leva a vida e automaticamente descarta tudo que ela pode ter a dizer. Desculpe, mas considero isso um tanto burro, além de ser bem moralistinha, afinal, cagar regra de como alguém deve viver sua vida não é algo que sequer deveria passar pela cabeça de uma pessoa bem resolvida. Oquei, somos todos mal resolvidos em alguma instância, mas acho que quando alguém se incomoda demais com o jeito que o outro vive, com a liberdade do outro de fazer o que quer - e não fazer o que não quer - é porque isso faz o sujeito ter que lidar com as insatisfações de sua própria vida. Por que a liberdade e a vida de alguém incomodariam uma pessoa plena? Simples, não incomodariam. 

Anfã.

Eu estava lá com Chiara visitando a Polly (<3) e ela sempre falou de Wicked, o musical que conta a história da bruxa do Mágico de Oz (aquele monstro), mas nunca me interessei muito, sei lá, não sou muito de musical, muita gente, muita roupa, muita luz, muita gritaria, eu gosto de blues e de rock de garagem, sabe? E não teria dinheiro pra ir, posto que fui com as libras contadas pra gastar só em uns disquinhos e umas cervejinhas, mas tive que comprar casaco e bota porque estava nevando e meus dedos estavam necrosando no frio (sério, chegou a rachar o esmalte do dedão - isso que eu levei cinco fucking pares de sapatos diferentes e nenhum suportava aquele frio e eles ficaram todos lá jogados em uma caixa sendo ridicularizados junto comigo). Não sobrou nem pra disco. Não fosse o compacto das Shangri-Las que ganhei do Rodrigo, teria voltado com as mãos abanando. Mas aí a Polly não permitiu que eu fosse embora sem assistir Wicked e comprou ingressos pra nós. 

Pausa.

Gente, arrepio só de lembrar.

QUE ESPETÁCULO.

Que história.

Que ideia incrível.

Minha vontade é postar todos os vídeos aqui em vez de tentar contar a história picotada, mas não, né. 

O musical é baseado no livro Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West, de Gregory Maguire, e conta a história de Elphaba, que é rejeitada pelo pai porque é... verde. Ela vai pra escola cuidar da irmã cadeirante queridinha do papai e conhece Glinda, a popular, a loira, a rica, a perfeita. Glinda quer ser bruxa, mas aparentemente não tem muito talento. Elphaba é uma jovem bruxa poderosa e nunca tinha tido talento algum reconhecido. A professora logo saca e promete um encontro com o Mágico - estamos em Oz, né. Elphaba e Glinda viram amigas, e Elphaba pede para levar Glinda junto para conhecer o Grande e Incrível Mágico de Oz. Chegando lá, Elphaba descobre que o Mágico é uma farsa, se recusa a corroborar com a palhaçada e é difamada, marginalizada, perseguida pela multidão (ai, a multidão) e derretida. Sim, derretida.

Tem uma cena em que o Mágico tenta corrompê-la e é mais ou menos assim: ele diz que nunca buscou o poder, mas que foi levado até lá pelas chances da vida e que agora todos o chamam de MARAVILHOSO. E se o chamam de maravilhoso, maravilhoso ele seria e daria aos cidadãos de Oz tudo que eles queriam. 

- Então você mentiu para eles?

- Apenas verbalmente. Além disso, eram as mentiras que eles queriam ouvir. Elphaba, de onde eu venho, acreditamos em várias coisas que não são verdade... chamamos de História! Um homem é chamado de traidor ou libertador, um homem rico é um ladrão ou um filantropo, outro é um explorador ou um invasor sanguinário. Está tudo no rótulo que persistir. São raros os que se sentem bem com ambiguidades morais, então agimos como se elas não existissem. 

(livre tradução do roteiro do musical, que encontrei aqui)

E ele diz que ela também pode ser maravilhosa. Ela, a mina verde, a que sempre foi motivo de chacota. E ela quase cai no papinho, até descobrir uma coisa que eu não vou contar porque não estou aqui pra dar spoiler. E vai embora voando na vassourinha dela dizendo que vai lutar contra ele e o que ele representa até o fim. 

Quer dizer: Elphaba não abriu mão dos princípios em troca de poder e aceitação. Em troca de "ser maravilhosa". Escolheu seguir o que acreditava e ser ela, ela de verdade, mesmo que ninguém jamais soubesse a verdade sobre ela, mesmo que falassem toda a sorte de coisa horrível sobre a bruxa verde e má, a abominação da natureza. 

As Elphabas são raras neste mundo. São raras as pessoas que não fazem tudo por aceitação, por uma mentirinha, uma maquiagenzinha na vida que as torne maravilhosas. Infelizmente, o que vale no mundo é o que parece. Se você parece uma pessoa arrogante, briguenta, ou o que for, você vira essa pessoa na cabeça dos outros. Quem se importa com a verdade? A verdade pode inclusive ser uma inconveniência, revelar falhas em pessoas "maravilhosas" que admiramos. A verdade é feia e pensar nela é incômodo. E gente que tem coragem de simplesmente ser o que é também incomoda. Muito. Porque os hipócritas que fingem a vida perfeita têm que lidar com todos os seus fingimentos ao ver alguém que não esconde as próprias falhas. 

Por um mundo com mais Elphabas, por favor. 

It's about time we defy gravity.

(Essa música não fez o menor sentido quando ouvi fora do contexto, mas agora eu me arrepio toda. I think I'll try.)


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*