04 de Agosto de 2013

Domingo

Hoje eu fiz fui na feira e quase arriei as costas de tanto carregar peso.

Fiz peixe, fiz arroz, fiz omelete, fiz purê, fiz brócolis e fiz um bolo integral de banana.

Arrumei a cozinha. Arrumei a casa. Fiz a lição com a minha filha. Estou exausta. 

Ainda tenho dois textos pra escrever. 

Tenho um livro pra revisar e outro pra continuar.

Amanhã tem trabalho. Amanhã tem a burocracia da vida. Amanhã eu não vou conseguir nem revisar um livro, nem continuar o outro.

Escrever anda muito, muito, muito difícil diante da burocracia da vida. 

Hoje eu fiz um monte de coisas e não fiz a única coisa que eu gostaria.

E estou aqui escrevendo sobre não escrever. 

Não é a primeira vez.

Não é a última. 

A sensação é que eu fiquei pra trás na vida, cuidando da vida. 

Que saudade do meu egoísmo.

Que saudade da minha solidão.

Que saudade da minha única obrigação ser a minha obsessão.

Que saudade de quando as crises se resolviam apenas com um remendo no coração.

Que saudade de quando eu não tinha esses cabelos brancos, de quando eu não tinha essas dores nas costas, de quando eu podia beber todos os dias sem me preocupar com ressaca, pois é, que saudade dos vintepoucos. 

Mentira.

Mas que saudade do futuro que eu achei que teria.

Não foi pra essa vida aqui que eu me inscrevi. 


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*