04 de Junho de 2013

Eclipse Love, a mulher magnética que desmunheca e os meus suspiros cansados

Mais um daqueles cursos pra conquistar homens. Perto do Dia dos Namorados sempre tem essas palhaçadas. Longe também. Sempre tem essas palhaçadas. Vamos lá, então, comentar esse lindo texto. 


Uma manhã cinza de sábado em São Paulo é um convite à preguiça, a um livro e àquela esticada na cama.

É.


Mas só pode se dar a esse luxo quem não quiser se tornar "magnética" para conquistar um partidão, promessa do treinamento intensivo oferecido pela agência de relacionamentos Eclipse Love.

Eclipse Love. Mulher Magnética. Partidão. Agência de relacionamentos. Suspiros cansadíssimos. Prossigamos.


Dezenove mulheres a R$ 1.000 por cabecinha estavam lá, em uma sala da avenida Paulista, diante de um "powerpoint" que anunciava mudar suas vidas. Eram secretárias, arquitetas e psicólogas com idades entre 30 e 60 anos.

E eu aqui, sabe. Devendo no banco. 


A criadora do programa, a psicóloga Eliete Amélia de Medeiros, 47, há 15 anos trabalha unindo casais e há dois abriu uma agência. Ela diz ser a primeira "heart hunter" (caçadora de corações) e chega a cobrar R$ 12 mil pelos seus serviços, que, segundo afirma, têm êxito de até 70%. Atualmente, diz, 2.500 pessoas contam com seu auxílio para ter sorte no amor.

*Chorando baixinho*


SUTIÃ DA DISCÓRDIA

RISOS


Na abertura do curso, Eliete explica que, como a Lua, as mulheres têm fases e é preciso respeitá-las. Pelo menos uma vez por mês, a mulher deve tomar um banho mais demorado e tirar um dia para apenas ingerir líquidos, cuidados que, avisa, se perderam com o tempo.

Oquei.


Após esse breve prólogo, dá-se início a um capítulo sobre etiqueta. Na tela está uma imagem de um sutiã em chamas. A professora diz: "Não foi nossa culpa que elas fizeram isso, mas precisamos resgatar a feminilidade e a tolerância se quisermos relacionamentos duradouros".

Dona, primeiro: esse lance dos sutiãs, há controvérsias sobre a história. É mais uma simbologia de se livrar de algo que aperta, que oprime, que incomoda. Entende?  E outra: não fossem as tais "queimadoras de sutiãs", a senhora nem estaria aí ministrando esse, cofcof, curso e dizendo que é psicóloga, pois não poderia sequer ter feito faculdade. Aliás, essas moças aí também não estariam podendo escolher marido nenhum, já que o pai é quem provavelmente decidiria com quem elas deveriam casar. Procure saber.


Nessa aula, as mulheres aprendem que não devem falar com o garçom durante um jantar romântico; que homens reparam se a pedicure está em dia e que é proibido comer muito em um primeiro encontro.

Não pode falar, não pode comer. E pensar, pode? Respirar?


Para a psicóloga Ana Letícia Pereira, 30, o capítulo foi bastante proveitoso. Ela acredita que perdeu um partidão por ter feito um pedido diretamente para o garçom durante um jantar. "Demonstrei ser independente demais."

Ainda bem, né? Que "perdeu" esse partidão? Ou será que seria massa você tendo que ficar à sombra dele pra sempre? Porque se o cara se incomodou com você pedindo o seu prato no restaurante, imagina então quando você fosse tomar as decisões na sua própria vida. Não, amiguinha, não. Não.


O que se fala à mesa também é importante: nada de tagarelar sobre trabalho. "Deixe esse assunto para eles, que já se sentem muito inferiorizados", ensina.

Quer dizer, o cara se sente inferiorizado, então você tem que fingir ser menos do que é e deixar que ele tome as decisões pra se sentir no comando... Certo. Muito saudável mesmo, muito bom você já de cara começar a se relacionar com uma pessoa fingindo fragilidade pra propagar essa coisa mofada de que o homem deve dominar uma relação. Palminhas. 


Um dos slides mostra que 50% das pessoas não querem parceiros acima do peso. A própria Eliete costuma rejeitar gordos em sua agência. "Sou carinhosa e assertiva, digo que se ela emagrecer aumentará seu leque de oportunidades", explica. Mas há gordos magnéticos, não?, a reportagem pergunta. "Não é o que dizem as pesquisas."

Em vez de dizer que 50% das pessoas não se importam se o parceiro está acima do peso, é claro que ela prefere focar nos outros 50%, os que acham que seu parceiro - ou, como parece ser o caso, sua parceira - não pode estar fora do padrão vigente de beleza. Estou até vendo essa senhora mandando alguma crespa alisar os cabelos pra "aumentar o leque de possibilidades". 

 *Mão na cara*


Depois de um breve curso de maquiagem --porque cara lavada é sinal de desleixo--, Eliete volta com um guia prático do magnestismo. Todas as participantes estão com caneta em punho. A primeira regra é a pontualidade. "Qual o problema em deixar um pretendente com uma Mercedes esperando na porta da sua casa por 15 minutos?" "Todos", responde a plateia. São Paulo é uma cidade perigosa, além de ser sinal de falta de respeito, segundo as participantes.

O problema em deixar qualquer pessoa esperando, gente, é que isso é falta de respeito. Não interessa se a pessoa está numa Mercedes ou em uma bicicleta, em São Paulo ou em Faxinal do Soturno. Gente, por favor. Precisa anotar isso? Vou nem comentar esse negócio da maquiagem porque né, risos.


Outro item elementar é o salto alto. "Sei que rasteirinhas e sapatilhas estão na moda, mas para atrair devemos usar salto", diz Eliete. Ela mesma não descansou um segundo do seu salto 12.

Porque, é claro, o que importa numa mulher é o sapato. Todos sabem. 


FORÇA NO REQUEBRADO

...


As magnéticas são maleáveis, "batem cabelo" (jogo de cabeça para os lados), quebram os pulsos (sim, desmunhecar) e movem os quadris enquanto conversam.

*Mão na cara balançando a cabeça* 

E dá pra FALAR enquanto faz tudo isso? Ah, não, não precisa falar, né? É capaz de o homem se sentir inferiorizado se você fizer tudo isso E pensar E falar ao mesmo tempo. Melhor não. 

 

Quem quer relacionamentos duradouros não deve transar na primeira noite, e o homem é quem paga o primeiro jantar. Mas a magnética também pode ser ousada e ligar no dia seguinte para agradecer o passeio, diz a professora, que informa estar há um ano e meio com um novo amor, após o divórcio.

Eu já acho que quem quer relacionamentos duradouros devia transar na primeira noite pra saber como é a coisa toda. Mas só se quiser, né? Se não quiser, não precisa. É bem simples, na verdade: fazer o que quer, quando quiser, e isso inclui ligar no dia seguinte. Sobre o homem pagar o primeiro jantar, não vejo sentido. É pra ele não se sentir inferiorizado também? Sabe, um cara massa não se importa de dividir a conta. E nem de pagar às vezes e nem de deixar você pagar outras vezes. 2013, sabe. 


Por volta das 15h acontece o segundo momento leve do curso, com dicas de como se vestir. Lembra a regra do salto? Então, ela vale também para praia ou piscina. "Como você não usa sapato nessas ocasiões, deve andar na ponta dos pés. Além de chamar atenção e olhares, gordurinhas e celulites ficam disfarçadas", afirma Eliete. Nesse instante, ela demonstra como deve é esse andar. As alunas a seguem com o pescoço.

HAHAHA puta merda. Eu tenho uma coisa pra dizer, dona: isso aí chama a atenção porque é ridículo, não porque é sexy. Pobres alunas. Que farsa. Fora que essas colunas aí não duram 10 anos se seguirem esse conselho. 


Para finalizar, a mestra pede que as mulheres fechem os olhos: vai começar uma técnica de relaxamento que, de quebra, promete aumentar a (estava faltando esta palavra) autoestima. Elas têm de visualizar uma "cena positiva" com o homem dos sonhos e guardar esse retrato. Depois, devem pensar numa pessoa muito especial, alguém que amem acima de tudo. Nessa hora, Eliete toca o ombro de cada uma, sinal para que abram os olhos. Um espelho está diante delas. Algumas não resistem e choram.

 Homem dos seus sonhos? 

*PÉÉÉ*  

Errado. Não existe "a pessoa dos nossos sonhos". As pessoas são pessoas, o que significa que são imperfeitas, vêm com passado, com vida, com defeitos. O primeiro erro nisso tudo é querer encontrar alguém perfeito. Não existem príncipes, gente, não existe ser feliz pra sempre, não existe nada disso, a sua felicidade não está no outro. Quem não conseguir ficar de boa só, nunca vai ficar bem com ninguém. Não existem príncipes que salvam donzelas de sua existência solitária. E achar que isso existe leva inevitavelmente ao fracasso e à infelicidade. 

Mas sabe o que existe?

Ser feliz sozinha e não pagar mil reais pra "aprender" como fisgar homens com técnicas que até minha avó, que virou feminista depois dos 70, reprovaria. Tudo errado.

E gente, as moças choraram quando se olharam no espelho? Como disse a Nádia, melhor gastar esse dinheiro com terapia, não com um cursinho de arrumar par. 

Eliete programa a versão do curso para homens no próximo semestre, com dicas de culinária, dança e enologia.

Noooooooo <o>

É isso, gente. Estamos em 2013 e tem gente que acha que não existe machismo, que o feminismo é inútil. Taí essa dona ensinando que devemos fazer o homem se sentir o provedor, o protetor, um partidão. Dezenove mil reais voando pro bolso dessa dona que ensina uma mulher a... se manter em seu papel de mulher. Zinha. Frágil e sedutora. No, no, no, não, nein. Não. 

^$^ 19.000,00 ^$^

Vou abrir um curso também, o que acham? Vai chamar "seja você mesma e aprenda a ficar de boa sozinha e se pintar algum cara massa continue sendo você mesma pois as coisas só funcionam assim e não adianta usar artifícios princesísticos pois isso só vai atrair babaca".

Alguém se interessa?

 

(Original da Folha Equilíbrio aqui)


ADENDO:

Vi muita gente xingando quem se inscreveu nesse curso. Parar e pensar: somos ensinadas, desde pequenas, que devemos casar, que precisamos de um homem ao nosso lado. É culpa delas? Não é. Tem gente que consegue se livrar desses conceitos. E tem gente que não sabe nem que existe outra opção. Eles estão profundamente entranhados na sociedade e em muitas, muitas mulheres - e homens também. E é isso que precisa mudar. 


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*