24 de Junho de 2010

em são paulo, zero reais

é impressionante a capacidade dos maus pagadores de automaticamente te transformarem em uma má pagadora também. uma bola de neve do mal. tento não guardar rancor ou sentir ódio em minha nova fase adocica iniciada imediatamente após whatever works, novo filme do woody allen, que me fez perceber o tempo todo que perdi com insatisfação. o velho woody me fez perceber que eu, você ou ele podemos estar perdendo, neste exato momento, tudo de bom destinado à vida por receio de perder alguma outra coisa hipotética que nunca virá. voto viver o agora, tão bom, sempre lembrando das grandes cagadas do passado e visando um futuro possível em vez de uma catástrofe iminente (além de tentar entender a teoria das cordas); nem tudo será sempre perfeito; nem tudo será sempre desgraçado se você for maduro suficiente para saber contornar as situações em vez de fugir delas e evitar o conflito. ora, você pode até fugir, mas o problema sempre vai continuar lá sentadinho esperando resolução. talvez apareçam outros problemas e sentem em seu colo. talvez uma pilha de problemas caia na sua cabeça por falta de apenas uma resolução. não precisa ser nenhum gênio para saber disso. não precisa ser um gênio pra quase nada, concluo.

chega de amargor. só estou cansada. fisicamente cansada. hoje. caminhei, ensaiei, andei de metrô, pratiquei o método tracy anderson, trabalhei - esperando que dessa vez me paguem em dinheiro depositado na conta, não em CHEQUE e muito menos em CHEQUE SEM FUNDOS. devem achar que sou a magnata do blog. que nado em dinheiro e agora cansei de escrever para fazer uma bandinha. se soubessem o quanto eu me esforço para que todas as coisas dêem certo, se soubessem a trabalheira de manter uma banda, ensaiar, lidar com gente, marcar shows, viajar, passar som, satisfazer e ficar satisfeito. se apenas soubessem.

se soubessem que cortavam minha luz quando eu não pagava a conta e agora cortam sem querer - mesmo com a conta paga.
se soubessem a merda que andou minha internet e o quanto isso dificultou meu trabalho porque queriam me cobrar uma fatura de JUNHO DE 2009 que foi paga hmmm deixa eu ver, EM JUNHO DE 2009.

eu devia era escrever um sitcom. me inspirar em larry david, meu novo mentor.

se soubessem o valor do trabalho não pagariam com CHEQUE SEM FUNDOS.

"é só uma traduçãozinha, faz aí"
"é só um textinho, fácil"

é fácil? é mesmo? então, olha,
FAZ VOCÊ.

desculpe, se for pra me tirar de trouxa e não me pagar, faz você. quando eu tinha vinte e dois anos subestimava o valor do dinheiro e fazia trabalhos exclusivamente por amor. "fazia". descontextualizando vai parecer diário de puta. pois é, fazia. agora eu tenho uma filha, contas, um vestido de festa junina para comprar (para minha filha pfv, não para mim, que imagem horrível me veio agora), uma moça muito querida para pagar, uma outra moça muito querida para pagar. cadê meu dinheiro? num cheque voltado. não agüento mais. i do it the hard way, como me ensinou chet baker. continuo com a dignidade intacta, não fiz nada que me ferisse até hoje. acho que faço certo. tenho zero reais na conta. o baixista da minha banda me emprestou dinheiro pra comprar olcadil antes que eu desparafusasse. obrigada, querido bandini. tenho bons amigos. infelizmente, nenhum deles é milionário. vou continuar fazendo do jeito difícil, mas adocicando. talvez funcione.

talvez eu ganhe na megasena.


Clara Averbuck é escritora

Instagram

  • Twitter
  • Facebook
  • RSS

Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*