11 de Setembro de 2011

Eu e o meu futuro do pretérito

Dia 11 de setembro de 2001 eu estava em um avião.

Voltando de Londres.

Depois de ter desistido de ir pra NY.

Eu era jovem, eu não tinha emprego, eu não tinha responsabilidades, eu não tinha nada. Fui pra Inglaterra cobrir o Reading Festival, onde tocariam os Strokes e outros - que até me interessavam mas, definitivamente, meu negócio era ver os Strokes. Deu tudo errado pra dar certo alguns dias depois, em Liverpool, onde tive o inenarrável prazer de, além de ver um dos melhores shows da minha vida num lugar com lotação de 300 pessoas, conhecer os mocinhos, beber com eles e fazer muitas trapalhadas com os amigos de ocasião Peter Doherty e Carl Barat.

Mas essa é outra história. Que eu já contei outras vezes.

Eu estava em Londres sem muito dinheiro e pensando se voltava pro Brasil ou arrumava um emprego. Eu tinha 22 anos, era um furacão de idéias e de tesão pela vida. Tinha vontade de fazer tudo. E fazia. Não que eu tenha mudado muito. Um pouco. Só um pouco.

E nessas de volto ou não volto pro Brasil, decidi que ia pra Nova York.

Porque eu sempre gostei,

Porque a passagem não era cara,

Porque eu não queria voltar,

Porque eu, naqueles dias, não me importava com nada além do presente.

Tenho amigos em NY, entre eles Renato Falcão, que é amigo do meu pai e sempre me ofereceu abrigo lá. Avisei que iria, tudo certo.

Fiz a reserva da passagem. 10 de setembro de 2001: Londres>NY. Não lembro o preço da passagem, mas lembro que era tão mais barata do que a SP>NY que eu nem hesitei.

Tinha também a passagem de volta para o Brasil, que eu não tinha desmarcado porque era uma desvairada. Acho que pensei em remarcar lá de NY, não lembro bem.

Em Londres eu basicamente andava pelas ruas, conhecia pessoas e escrevia. Estava mais ou menos na metade do meu primeiro livro, Máquina de Pinball. As coisas aconteciam muito naquela época, eu fazia coisas acontecerem e absorvia a tudo, coisas boas e coisas ruins, pessoas, coisas, música, filmes e lugares, tudo, como um mata-borrão. Tudo era matéria-prima. Saudades da época em que usava a matéria-prima só para minha própria obra. Escrever era a coisa mais importante da minha vida, mais do que comer, mais do que respirar, mais do que qualquer coisa. Eu tinha acabado de mudar para São Paulo, no começo de agosto, e era tudo muito novo, tudo muito grande, tudo muito solitário. Comecei meu primeiro livro assim que cheguei e naquela época escrevia no COL, que já estava querendo terminar - e que teve sua última edição publicada em... 11 de setembro de 2001.

Morar em Nova York sempre foi, e ainda é, um sonho meu. Sonho não; plano. Desde os 16 anos, quando botei os pés lá, senti que era minha casa. Minha idéia era mudar pra lá depois que... depois que sei lá o que acontecesse em São Paulo. Só sabia que queria morar lá.

No dia 10 de setembro eu acordei com ~alguma coisa~ me dizendo para desistir dessa loucurada de Nova York e voltar pro Brasil. Terminar o livro, pegar o Joo (meu gato que tinha uns 3 meses na época e estava na casa do Fábio Bianchini, meu amigo que me abrigava), sei lá, tomar tenência.

Cancelei tudo e voltei no dia seguinte.

Terminei meu livro. Peguei o Joo. Não tomei tenência até hoje.

11 de setembro de 2001.

londres-amsterdan

Embarquei tranqüilamente, vim escrevendo no vôo, vendo Pantera Cor-de-Rosa, lendo, pensando em como a viagem tinha sido legal. Em como eu tinha engordado. No menino que eu era apaixonada na época e que não queria saber de mim porque eu tinha feito uma merda. E ouvindo Strokes no discman, risos.

Cheguei no Brasil sem saber de nada, assim como todos que estavam no meu vôo. Não sei se os pilotos têm algum contato com a civilização nesse nível de saber de um atentado, imagino que não. Então todo mundo chegou sem saber de nada.

Desci do avião e não entendi nada. As pessoas estavam enloquecidas, agitadas, apavoradas.

E as televisões do aeroporto mostravam repetidamente a imagem dos aviões se chocando contra as torres gêmeas. Demorei pra entender, ninguém conseguia explicar direito, precisei comprar a edição extraordinária de um jornal pra me situar.

E se eu tivesse ido mesmo pra Nova York? Será que meu avião teria pousado? Será que eu estaria no aeroporto? Será que eu estaria no ar ainda? Será que eu teria voltado pra Londres? Será que teriam desviado a rota do meu avião e eu teria ido parar, sei lá, Kuala Lumpur? E se eu tivesse chegado de fato em Nova York, como seria? Será que eu teria voltado pro Brasil? Ficado lá para sempre? Será que eu teria feito meu blog, brazileira!preta, no dia 16 de setembro? E como seria o fim do Máquina de Pinball, já que depois de Londres a minha Camila voltou pro Brasil?

O pai da Catarina morava em Nova York nessa época. Voltou para o Brasil logo depois dos ataques. Será que a gente teria se conhecido lá de qualquer maneira?

Poderia continuar por mais 10 anos no incrível mundo do futuro do pretérito. Mas prefiro, assim como a Clara(h) de 22 anos, viver no presente. E no presente momento minha filha dorme, eu estou com sono e quero acordar cedo para ir à feira comer pastel.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*