29 de Abril de 2012

Eu fiz os degraus badalarem

Eu estava solitária num apartamento emprestado por um japonês, longe de tudo, sem dinheiro e sem amor. Não sei se acreditava em deus, se algum dia acreditei, só sei que ele não estava lá nessa hora.

Mas o Fante, o Fante estava, e ele virou meu deus.

Riam, podem rir, podem me achar louca e pateta e exagerada, talvez eu seja mesmo, mas ele estava lá comigo e me salvou de morrer de dor e de solidão. Seus livros eram minhas bíblias, sua foto era meu altar. Eu olhava a foto na minha mesa e dizia meu velho, meu velho, que bom que você está aqui comigo, que bom que você não me abandona nunca. Ele estava ao meu lado o tempo todo, no meu ombro o tempo todo enquanto eu escrevia meu terceiro livro, e batia no meu ombro e dizia lindo, lindo, sofre, Clara, sofre porque é o único jeito de fazer as coisas direito, sofrer de mentira não vale, inventar sofrimento também não. Sofre porque sofrer é trabalho duro e quem trabalha duro tem sucesso. Então eu sofria, acordava no meio da noite com meus fantasmas girando no teto do quarto junto com as vozes da insanidade e escrevia, escrevia febrilmente enquanto tomava vinhos de cinco reais do Supermercado Sagres.

Então eu terminei o livro e outro amor veio, o amor me consumiu e o Fante foi embora. Continuei escrevendo mas sem sofrer, só pensando, não era ruim, mas faltava todo aquele sangue, todas aquelas entranhas que eu vomitava no passado todos os dias enquanto o sol nascia dourado nos prédios da Vila Mariana. A Vila Mariana foi embora, o sol foi embora, eu fui embora. Minha barriga cresceu, meu novo amor me fazia feliz. Minha filha nasceu, meu pequeno tesouro rosado com os olhos negros do pai, me amando instantanea e incondicionalmente, minha filha, minha princesa, minha gatinha.

O Fante tinha ido embora, ele tinha me abandonado, não estava mais lendo por cima do meu ombro.

Meu amigo escritor dizendo que era bom, que eu precisava me livrar do encosto, mas não, não era um encosto, ele não entendia. Ninguém entendia.

Então eu vim para Los Angeles procurar minha igreja, a Bunker Hill Avenue, Angel’s Flight e a Spring Street e a Main Street. O Hotel Alta Vista, a Biblioteca Pública e os Degraus de Bunker Hill. Ninguém sabia onde ficava. Todo mundo só queria saber de tirar fotos dos pés dos astros e das estrelinhas no chão, pfff, eu dizia, e fumava meu cigarro, vocês turistas japoneses não sabem nada, tive que me virar até lá no metrô e chegando lá perto ninguém sabia também, ninguém nunca tinha ouvido falar na Bunker Hill Avenue nem no Alta Vista Hotel. Não existia. Um menino mexicano veio em me levou até Angel’s Flight, e ele trabalhava numa lanchonete e pegou cerveja de graça em copos grandes e nós procuramos e procuramos a Bunker Hill Street, mas ela não estava mais lá. Setenta anos se passaram, a rua deve ter mudado de nome, o hotel deve ter sido reformado, não achei minha igreja.

Mas subi os degraus de Bunker Hill, John Fante, meu deus, um dia você escreveu que aqueles degraus badalariam com a sua memória, e que John Fante e Arturo Bandini, dois em um, amigo dos homens e dos bichos, seria lembrado lá de cima dos 103 degraus de Bunker Hill, e eu fiz isso, sim eu fiz, eu subi aqueles degraus e olhei para baixo e lá estava a biblioteca, e lá estava você, você tinha voltado para mim, eu senti de novo sua presença do meu lado e voltei pra casa e tomei uns remédios para não dormir porque queria escrever, mas não adiantou nada porque eu estava muito cansada, então eu desmaiei de roupa mesmo na cama de molas do meu hotel em Hollywood na Orchid Street, perto dos turistas japoneses que só querem saber de tirar fotos dos pés dos astros.

Acordei agora, cinco da manhã, com você puxando meu pé. Eu fui na sua parte da cidade, John Fante, eu vi tudo, mas era tudo diferente. Os negros gostavam de mim e falavam coisas, mas eu não estava nem aí, eu queria achar o Alta Vista Hotel onde a Camilla jogava pedrinhas na sua janela. Eu vou encontrar. Foi só meu primeiro dia, eu ainda vou voltar para o seu lado da cidade no meio dos traficantes e dos vendedores de coisas na rua, eu vou lá te encontrar, porque eu vim para isso. O dia está claro. Vou lá te visitar de novo, meu velho. Nunca mais me abandone.

(Los Angeles, 2004)


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*