07 de Julho de 2012

If you have to ask - you'll never know

O amor é irracional.

Lembro de uma vez, quando eu era pequena, bem pequena, estava acho que no Jardim de Infância, e resolveram perguntar por que eu gostava do meu pai pra escrever em uma... gravata de papel. Era um trabalho de dia dos pais, daqueles bem caretas. E não fazia o menor sentido pra mim. Nem a pergunta, nem a gravata, que meu pai nunca usou. Nessa época, ele tocava bandolim na Cantina Itália e torturava meus ouvidos e os da minha mãe estudando violino.

Como é que pode alguém perguntar para uma criança por que ela gosta do pai?

Respondi: porque ele faz a minha mamadeira.

Sei lá. Foi o que me ocorreu.

Porra.

Gosto do meu pai porque ele é meu pai, gente!

Até hoje eu não sei responder essa pergunta. Sei de muitas coisas que gosto nele, mas o porquê concreto eu não tenho assim na ponta da língua.

Gosto porque gosto.

Lembro de responder alguma coisa do gênero e emputecer um namorado antigo. Acho que falei que gostava do sanduíche dele. Risíssimos. Porra, eu gostava dele. Porque gostava. Porque ele era legal e inteligente e engraçado. Porque a gente se dava bem. Porque sim, cacete.

A gente sempre, ou quase sempre, sabe dizer por que não gosta de alguém. Mas enumerar os porques do amor, olha, isso aí eu já nem tento mais.

Amo porque amo. É isso.

Depois de muito tempo tomando no cu, descobri que é, pois é, o amor é irracional.

Mas eu não posso ser.

Mais de uma vez cometi absurdos e impropérios em nome disso. Mas é amor!, eu pensava. E arrancava os pedaços meus pelo caminho.

Agora não; agora chega disso.

Esse negócio de arrancar pedaços já não me serve, que eu preciso de mim inteira pra sobreviver.

Antes inteira e sozinha do que capengando por aí.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*