18 de Outubro de 2009

INTERALAGADA - O FIM

ah, se eu soubesse. por todos os deuses e homens, se eu soubesse, jamais teria ameaçado blasfemar. parece que me ouviram. se eu soubesse que o senhor sol faria tamanho dano a esta que vos fala, jamais teria clamado por ele. saímos de casa e lá estava o sol e eu disse olá, senhor sol, que prazer encontrá-lo, por favor fique até o fim do dia. mesmo estando de calças grossas e as minhas botas outrora encharcadas mas que minha secadora deu um belo de um jeito. já no ônibus de ida comecei a suar e passar calor. sabe, eu sou a única pessoa conhecida por ter chorado de calor em porto alegre durante um certo verão de 19ealguma coisa. não gosto de muito calor mesmo. especialmente em um dia que minha sinusite acordou tão radiante quanto meu marido. ele queria tanto que eu fosse, ele ficou tão feliz na noite anterior quando falei que iria mesmo se chovesse e mais ainda quando viu a bela manhã de sol. ora, nada poderia ser tão ruim com ele perto. até comprei uma bermuda de cotton bagaceiríssima no caminho e tirei meu jeans só pra poder não reclamar muito ao lado dele. l'amour, mon ami.

<i>mais um casal feliz nas arquibancadas</i>

apenas mais um casal feliz nas arquibancadas

e o sol lá, ó:

<i>ó</i>

ó

mas ah, se eu soubesse que horas de sofrimento depois eu acabaria na cama, de onde talvez nunca devesse ter saído por causa da minha sinusite - aquela que acordou radiante e foi piorando ao longo das horas que eu, meu marido, a família dele, meu protetor solar 40, minhas homeopatias, minha solução manipulada de luffa, meu do-in,

<i>meu do-in</i>

meu do-in

meu ipod tocando ruth brown

<i>apertando o ipod</i>

why me? why me? why meee?

e mais toda aquela gente desprotegida ficamos debaixo de um sol escaldante. é claro que a chuva e o frio que esta pobre moça passou no dia anterior ajudaram para que a sinusite dominasse, mas isso é passado. o fato é que eu nunca vi tanto sol em toda a minha vida.

<i>reluzindo</i>

reluzindo

sabe, não sou uma pessoa de multidões, tampouco de esportes, menos ainda de ídolos nacionais. morro de dó deles que carregam toda a frustração alheia com a própria vida acumulada em suas costas em uma situação assim - porque neguinho chegou lá já achando que o pobre rubinho ia ganhar. quer dizer, até eu sei que o rubinho é zicado, ele não é ruim, só fizeram uma macumba que nunca mais saiu. e mesmo assim todo aquele povo lá no vai rubinho. eu ia achar legal se ele ganhasse para provar que se pode vencer uma macumba, não pela prova automobilística. mas aparentemente ele é tão zicado que a zica passou também para mim. a sinusite piorava, ele perdia posições, eu não entendia nada porque estes binóculos

<i>vintão</i>

vintão

estavam na mão do meu marido, que queria muito mais ver a corrida. ele sempre foi louco por F1. ele me mostrou a coleção de carrinhos lá na casa dele de quando ele era criança. a última coisa que eu queria era atrapalhar o dia dele, que estava tão vibrante quanto o amigo sol.

<i>o amor é cego mas bom mesmo é ser surdo</i>

o amor é cego mas bom mesmo é ser surdo

mas chegou uma hora em que eu, meu protetor solar 40, minhas homeopatias, minha solução manipulada de luffa e meu do-in

<i>meu do-in</i>

meu do-in

não estavam mais fazendo efeito algum. eu precisava procurar o posto médico antes que morresse de sinusite e insolação, além de dor na ponta dos dedos. sério, eu estava quase desmaiando. e eu não ia desmaiar, não é mesmo? tenha dó. aí já sabe. pressão 10/6 - ela anda gostando desses números. não tem soro fisiológico pra lavar a sinusite? vai água de seringa. me mandaram fazer a limpeza numa pia ali. quase me afoguei num frasquinho do tamanho de um flaconete de eparema enquanto os carros zuniam como furadeiras ensandecidas. eu não fazia idéia do que estava acontecendo. estava atordoada, afogada e com mais dor de sinusite ainda. voltei a nossa arquibancada g, onde o clima era fúnebre. rubinho estava em terceiro. coitado do rubinho. fiquei com vontade de dar um abracinho nele; tudo que eu ouvia era piadinha e muxoxo. poxa vida, gente. sejam compreensivos, a macumba não saiu. mas a galera saiu. e antes da corrida terminar.

<i>coitado do rubinho, gente</i>

coitado do rubinho, gente

silêncio mortal no ônibus da volta. nessa hora eu até secretamente agradeci (desculpe, rubinho) pela derrota do brasil. se alguém gritasse eu entraria em choque anafilático por overdose de cultura de povão. cheguei em casa, tomei banho e desfaleci sobre a cama. acordei agora, ainda com água no nariz. there there.

é, eu definitivamente ainda prefiro os cavalos. mesmo que não tenha dinheiro para apostar neles.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*