12 de Março de 2013

Kinder Ovo: que surpresa!

Hoje a grande discussão do site Twitter foi a respeito do... Kinder Ovo.

Ah, pois é. A Kinder resolveu então que ia fazer ovos de páscoa rosa-menina e azul-menino.

 

E algum babaca foi lá e fez uma petição falsa contra, só pra encherem um pouquinho mais o saco do Feminismo e dizer que não temos o que fazer.

Acontece que, como sempre, ninguém apura nada na Internet e o assunto caiu no Tribunal das Redes Sociais

Feminista não tem mais o que fazer, lavar louça, blablabla etczZzZz. 

Bom, olha só: eu não sei o que tem dentro desses ovos. Pelo que entendi, fadinhas e bichinhos fofos para as meninas, carrinhos e monstrinhos para os meninos. Folgo em saber que não tem panelinhas ou bebês para as meninas, mas ó, mesmo assim, tenho más notícias: é sim machista e sexista essa decisão da Kinder. 

Eu ainda me assusto um pouco com as reações das pessoas nas redes sociais. Como disse a Rosana Hermann, boa parte das opiniões é fundamentada no quanto seus emissores não entendem do assunto sobre o qual opinam. 

É pra vender mais? É pra "facilitar" pro consumidor? É claro. Raramente as empresas tomam decisões assim com alguma consciência social. O problema é justamente esse: o conceito "coisa de menina" e "coisa de menino" já está profundamente entranhado na cabeça de todos. Tão entranhado que não é um problema. Tão entranhado que pode parecer uma imensa bobagem para alguém de olhos destreinados. Não quer, não compra? Não é nem essa a questão. Isso demonstra apenas uma preguiça enorme de pensar, de saber os porques de tudo, de debater. Eu é que digo: não quer, não debate. Mas não vem querer dizer que debate não é importante.

O problema não é O KINDER OVO. 

O problema é o que meninos e meninas são encorajados a gostar, o problema é separar a infância em coisa-de-menino e coisa-de-menina. O buraco é muito mais embaixo. E muito mais fundo. E o assunto é muito mais difícil e sim, é muito chato. Chato porque é diferente do que fomos ensinados, do que estamos acostumados a digerir. Chato porque requer que pensemos, requer assimilar novos conceitos, chato porque é assim há muito, muito tempo. Chato pra cacete isso de tentar mudar o jeito errado que as coisas são. 

E se um menino quiser brincar com panelas? Tem algum jogo de panelas "pra menino"? Não tem. Tem uns fogõezinhos rosa com meninas de cachinhos sorridentes em volta. É "de menina", ele vai entender que não é pra ele. Ou, pior, se ainda assim quiser brincar, é capaz de sofrer represália dos pais, causar preocupação. Não é coisa de menino. E se ele quiser uma boneca, então? Leonardo Sakamoto, quando escreveu a respeito, virou motivo de profunda chacota. 

Acontece que isso se chama: papéis pré-definidos de gênero. Menino é isso, menina é aquilo. Menina é assim e gosta disso, menino é assado e gosta daquilo. Lugar de mulher é na cozinha, lugar de homem é na rua. Lugar de mulher é cuidando do bebê, lugar de homem é se aventurando no desconhecido.

Aí começam com aquele papo: "feminista até tal coisa acontecer" ou  "por que as feministas não lutam então para que as mulheres façam serviço militar?" e outras barbaridades. Como se "castigar" as mulheres com as coisas ruins que os homens passam fosse resolver alguma coisa. Lembrem-se, o feminismo é para todos, não é para oprimir os homens. Errado pensar que invertendo o erro a coisa vai ficar "moderna". É como a propaganda do Vanish do post anterior: acharam que era uma boa idéia parar de fazer propagandas com mulheres lavando a roupa e resolveram então objetificar o homem e mostrar um cara com "tanquinho". Tanquinho, lavar roupa, hein, hein?  Errado, publicitários, muito errado. Tudo errado.

Mas eu estava falando de papéis pré-definidos de gênero. 

Minha amiga Bic perguntou hoje: mas e se o meu filho quiser brincar com "coisas de menino"? Gente, não tem problema. Mas não tem problema também se ele quiser uma boneca, tem? Não deveria ter. Eu, particularmente, acho os brinquedos educativos e neutros mais interessantes, mas essa sou eu - e não tinha essa visão quando minha filha nasceu, infelizmente. Mas não precisa criar a criança em uma redoma. Minha filha gosta de Monster High, alguém acha que eu impeço? Eu brincava de Barbie e estou aqui firmona. Mas também brincava de He-Man, por exemplo. Me foi dada a opção de brincar com o que eu quisesse e eu sabia que o mundo era cheio de possibilidades. Tive muita sorte, minha família é demais. Eu tive opções, e opções eu dou pra minha filha. Videogame é coisa de menino? Não é. Videogame é coisa de quem gosta de videogame. Futebol é coisa de menino? Rapaz, não. Só que, curiosamente, é mais fácil aceitar uma menina fazendo "coisa de menino" do que o contrário. Menino fazendo coisa "de menina" é o fim do mundo, inaceitável para muitos pais. É claro que existem também as pressões sociais de grupo, mas isso faz parte justamente desse ciclo vicioso dos infernos que precisa ser quebrado. Criar filho não é fácil, nunca foi e nunca vai ser. Mas temos que parar de ter preguiça de pensar e parar de repetir padrões caquéticos que não têm mais nada que estar entre nós.

Pensar um pouquinho só, sabe? Antes de rejeitar uma idéia.

Não dói e não custa dinheiro.

Diferente do Kinder Ovo, que custa bem uma graninha e que, garanto, não vai trazer nenhuma surpresa aqui pra casa. 

 

P.S.: Procurando Firme, da Ruth Rocha, era uma das minhas histórias preferidas quando era pequena. É sobre uma princesa que... Bom, melhor vocês mesmos lerem, se quiserem, é claro. Eu leria. Acabei de ler de novo. Aliás, Ruth Rocha é uma das minhas escritoras preferidas até hoje. Muito obrigada, Ruth, por suas histórias maravilhosas. Elas tiveram grande parte na mulher que eu me tornei. 


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*