15 de Setembro de 2012

Louça Morta

Aí que eu voltei a cozinhar.

Durante determinado momento da vida, curti bastante fazer incursões na cozinha. Mas acho cozinhar só pra mim muito chato e parei depois que voltei a morar sozinha. Curto cozinhar para amigos, e nos últimos eu não tenho estado exatamente confortável em minha casa (isso já vai mudar com uma reforminha, assim que $), então fico assim de chamar gente pra vir aqui e acabo saindo pra comer sempre e convivendo com uma geladeira repleta de... gelo.

Mas esses dias fui possuída pelo desejo de cozinhar novamente. Eu e minha amiga Chiara fomos ao supermercado, compramos ingredientes lindamente selecionados - além de uns vinhos e umas cervejas, que ela, aprendiz de beer somelhê, está me apresentando - e eu fiz uma incrível carne com batatas na cerveja.

Uma coisa é bem óbvia: a comida só sai boa quando estou a fim de fazer. Se eu não estou, se estou cozinhando porque preciso, fica meio sexo sem tesão, sabe? Pois é. As últimas vezes que eu tinha cozinhado tinha sido sob pressão & necessidade, e ainda uma comida que eu não tinha o menor tesão em fazer, então não tinha como, ficava mesmo uma merda. Agora não; agora eu quero. Aí fica bom.

Essa semana eu cozinhei todos os dias. Pra mim, olha que incrível. Parte porque estou perto da linha da pobreza, parte porque eu agora tenho colesterol alto (não basta sofrer de artrose aos 33, tem que ter as taxas de colesterol e de cortisol lá em cima) e quero cuidar exatamente o que como pra acabar com essa merda e poder voltar a comer umas porcariazinhas, parte porque estava a fim, ora bolotas.

O problema é o seguinte: e a louça, quem lava? Prefiro carpir asfalto do que lavar louça. Sério mesmo. Tenho nojinho, me deixa. A faxineira vem uma vez por semana, enquanto isso eu vou regando a louça com detergente e água fervente pra não criar um pequeno ecossistema em minha cozinha. Meus gatos me olham com desprezo enquanto se lambem, mas como eles nunca se prontificaram a lavar nada além de seus próprios corpos, ficamos por isso mesmo.

Hoje eu ia cozinhar. Ia fazer um pequeno banquete novamente para minha amiga Chiara.

Desisti. Era muita louça, era muito sofrimento, eu não quero, eu não gosto. Lavei três pratos, entupiu a joça da pia, chega, desisti, deixei tudo lá organizadamente sujo e fui almoçar no restaurante ao lado de casa.

Me comprometo aqui e agora a mandar arrumar minha máquina de lavar louça quebrada há dois anos na próxima semana. Quero poder fazer meus pequenos & belos pratos lindamente temperados quando quiser sem ter que ficar antesofrendo com a imagem daquela pilha triste em minha pia.

Então, caso alguém em algum momento venha perguntar se "eu não tenho louça pra lavar", saiba que sim, eu tenho, mas não lavo.

Ósculos e amplexos,

c.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*