18 de Janeiro de 2012

minha primeira ex-amiga

eu tinha uma amiga. bom, ela nunca foi uma daquelas amigas que a gente sente que entende tudo, essas são tão raras que ninguém nem espera encontrar mais de uma ou duas ao longo da vida. eu tenho bem umas três, então já posso me considerar uma grande sortuda e me contentar com essas companhias que podem até se tornar constantes, um tanto intensas, divertidas e tal, mas a gente sabe lá no fundo que não passam disso.

mesmo assim, eu tendo a ser uma amiga fiel. essa tal amiga, certa feita, se engraçou com um rapaz e ele fez alguma coisa que a magoou. fiquei do lado dela. nem foi nada demais, acho que ele só não quis mais saber mesmo, depois de comer. acontece, não acontece? acontece comigo, acontece com você, com ele, com todo mundo: às vezes a gente desiste da pessoa no meio do processo. mas ela é muito analisada e criou mil teorias com a analista a respeito do assunto, e eu meio que caí naquela, destratei o cara e ainda xinguei bem alto de babaca na calçada de um bar.

essa sou eu. eu tomo partido.

e eu não quero perto de mim ninguém que não seja assim. amigo, minha gente, tem que tomar partido. não precisa ser em TUDO. mas quando acontece alguma coisa séria, o seu amigo tem que ficar do seu lado. senão não serve nem pra ser companhia esporádica.

nem pra passar o tempo.

nem pra falar de amenidades.

nem pra rachar um táxi.

eis que, durante os acontecimentos pesadelísticos desta época do ano passado em minha vida exposta em rede nacional e espremida de mim contra a minha vontade, percebi essa `amiga` totalmente omissa. ela, que era tão feminista, ela, que sempre teve todo um discurso riot grrl, ela, que, meu deus, não tinha outro lado pra estar naquela história senão o meu.

não nos falávamos há alguns anos, mas isso pra mim não importa; era MINHA amiga. não falo esse MINHA de maneira possessiva, não sou dessas, mas ela era minha amiga, do meu meio, amiga dos meus amigos, com uma visão de mundo até que parecida com a minha.

e essa minha amiga não me respondeu quando perguntei a ela o que ela estava fazendo andando com gente que tinha agido de uma forma tão escrota comigo. eu não estava cobrando amizade, só estava perguntando, mesmo. se ela dissesse "olha, achei que você estava errada, achei babaquice sua, ouvi o lado do cara e acho que ele está correto" eu ia achar que ela estava maluca, mas pelo menos ia entender.

mas não. ela nem me respondeu.

e nunca mais nos falamos. vi que ela entrou no grupo de amigos de uma galera evidentemente equivocada, falsa, errada, sem ética. sei também que ela continua em contato com os nossos amigos em comum, com quem também não falo há tempos. certo. é o seguinte: unfolei no twitter, apaguei do facebook e declarei acabada a nossa amizade depois que hoje, clicando em aquis e alis aleatórios, me deparei com uma foto dela sentada ao lado, toda amiguinha, de uma das pessoas que mais me fez mal nesta vida. e ela SABE. e não foi mal que estava na minha cabeça, que eu debati no bar e concluí. foi mal real mesmo, mal incontestável em um nível de mau caratismo tão grande, mas tão grande, que eu não consigo aceitar alguém que está oquei com isso.

não tenho raiva, não tenho rancor, não vou ficar remoendo. já estávamos mesmo distantes e tudo bem.

quase tudo bem.

é chato, né? perceber como algumas pessoas que já foram tão próximas resolvem fazer vista grossa para um comportamento que elas passaram A VIDA condenando.

e o que aprendemos?

nada.

bej.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*