25 de Janeiro de 2012

Minha querida putinha

Um dia eu acordei, olhei para a cara da minha vida e decidi morar em São Paulo. Foi uma decisão fácil, uma vez que eu estava de saco cheio da minha cidade, fato que perdura até hoje, mesmo que há três anos minha casa não seja lá. Então um dia eu acordei, me empacotei e me mandei. Troquei muitos livros, muitos discos, uma cama queen size, uma vitrola, tv a cabo, lava-louças, cablemodem, o jogo de taças de cristal que minha avó ganhou de casamento, um baixo de pau, máquina de lavar roupa, máquina de secar roupa, forno de microondas, bonequinhos dos Beatles, dois gatos, um namorado e minha infância por um quarto de empregada onde eu e minhas pernas de um metro não cabíamos nem na diagonal. Nunca me arrependi, mesmo com a tristeza e a solidão, mesmo com o gosto amargo da poluição na boca e da caca preta no nariz, mesmo com a sensação de que São Paulo era uma puta que tinha me seduzido, ou melhor, que eu era uma puta em busca de dinheiro e vida e acabou quebrando a cara. Porque São Paulo é sedutora, feia, suja e poluída; porque as luzes da Paulista piscavam para a minha alma como as putas da Augusta, porque as putas da Augusta, as putas da Augusta me davam um frio na barriga, "será que eu vou ser uma delas?" eu pensava com o glamour burro da caipira recém-chegada na cidade grande, bebendo, sempre bebendo, sempre às custas dos outros porque eu mal tinha os cento e cinqüenta paus necessários para pagar meu quarto de empregada - com direito a usar a cozinha e o banheiro -; porque foi um momento de euforia estranha onde tudo era novo e excitante e meio deprimente porque eu não tinha ninguém com quem dividir nada, fora Joo, o Gato, que era meu único e melhor amigo. Porque eu procurava por amor em qualquer esquina, em qualquer boca, e tudo era vazio e cinzento como aquele inverno que gelava os meus ossos quando eu tentava me reinventar e bebia, e chorava, e escrevia e escrevia como se fosse morrer no dia seguinte. Desses dias bizarros de ciclotimia saiu meu primeiro livro, meu primeiro filho, de quem eu sou a mãe e São Paulo é o pai. Depois vieram outros, mas o primogênito sempre será o primogênito.

Então eu dei meu coração e me cuspiram de volta, porque eu ainda dava o coração e acreditava naquela época, e sofri mais e mais e escrevi mais e mais e fui despejada, todo mundo buuu buuu volta pra casa gaúcha metida e eu mandando todo mundo tomar no cu e ficando, mesmo que a cidade tivesse se tornado hostil, ninguém me come e me chuta da cama, ninguém me expulsa, ninguém me doma, São Paulo, eu vou embora quando eu quiser, não quando você mandar.

Dizem que o povo faz a cidade mas São Paulo não tem povo, tem um amontoado de gente tentando se virar e sobreviver, inclusive eu, e a cidade tem sua vida própria, sua eletricidade ao mesmo tempo lasciva e repulsiva arrasando tudo como um tapete de concreto sem respeitar nada, nem árvores nem grama nem casinhas nem nada, simplesmente mandando a patrola atropelar o que estiver no caminho. Com São Paulo não tem papo.

Mas um dia, numa noite fria de julho, São Paulo me abraçou, eu gritei e gritei de dor e minha filha nasceu na minha cama, na minha casa, em plena Santa Cecília, e naquele momento eu e a cidade fomos uma, eu parindo e ela acolhendo a minha cria. Minha princesinha é paulistana, quem diria, e paulistano também é seu pai, meu amor, meu chão e minha raiz nesta cidade. Agora eu estou para sempre aqui e ela pra sempre no meu coração. E eu morando no coração dela, na Praça Roosevelt, no centro, no olho do furacão.Tudo de ruim e de bom que ela me deu, tudo que passei aqui vai ficar comigo pra onde eu for, não importa quanto tempo fique fora, pode ser que eu parta e nunca mais volte, mas por que eu precisaria voltar se ela vai estar comigo?

(Publicado em 2004, no brazileira!preta, meu primeiro blog)


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*