07 de Março de 2012

nada é tão ruim que não possa piorar

saudade do meu pior. de quando andava perdida sem nenhum medo de me achar, de quando não precisava dormir porque não tinha que acordar, de quando não tinha vergonha de mim, do meu corpo, do meu trabalho, da minha vida, das minhas dívidas. uma puta de uma saudade de quando eu não pensava nas réplicas e não desistia de falar e não me preocupava com alguém entender, era tudo só fazer, fazer, fazer do jeito que eu achava que devia ser feito. aqueles eram os dias. eu podia andar por aí descabelada, acabada, triste. o mundo era vazio, o céu era vazio, as ruas eram cheias de gente e eu não tinha ninguém pra conversar, então observava e fumava os meus cigarros como se não houvesse amanhã, porque não havia. saudade da minha solidão, da minha tristeza, do frio na barriga quando olhava pela janela, das noites sem dormir, das vozes girando no teto do quarto, da febre, de mim, de nada. saudade do meu pior. saudade do meu pior. era melhor do que isso.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*