30 de Agosto de 2012

Categoria:

chega

Nos matando lentamente

Eis que hoje me chega uma DM de uma amiga:

clara clara claraaa SOCORRO, fui coçar o pescoço e percebi que ele está TOTALMENTE FLÁCIDO. Já até chorei :( Existe creme pra pescoço? rs :(

Ela não tem TRINTA ANOS DE IDADE. E é linda. E eu tenho certeza absoluta que o pescoço dela não está flácido.

Meninas, é o seguinte, nós precisamos conversar. Todas nós.

Essas mulheres que a gente vê na tv, nos outdoors, nos anúncios, em todos os lugares, vocês sabem que elas não são reais, não é mesmo? Sim, existem mulheres belíssimas, magras, naturalmente lindas, que apenas se cuidam e fazem pilates e sei lá o que mais. Mas infelizmente o que mais vemos é gente que foi mexida. Assim mesmo, mexida. Botou peito. Tirou nariz. Esticou aqui. Repuxou dali. Sugou daqui para encher acolá. Pra que? Pra se aproximar daquele ideal de beleza maluco de perfeição. Primeiro: perfeição pra quem? Segundo: quem disse que é isso que é bonito? Terceiro: quem determinou que é isso que é bonito? Meninas, sério: isso simplesmente NÃO É REAL. A gente sabe, mas somos tão bombardeadas a todas as horas do dia e da noite com imagens/pessoas manipuladas que aquilo acaba entrando nas nossas cabeças e nos deixando malucas, achando que só seremos felizes sendo daquele jeito. Digo "nós" porque eu, até pouco tempo, era completamente obcecada com isso. Pois é. Desde sempre. Tomei tanto remédio pra emagrecerr que eu não sei como meu cérebro não fritou. Me achei linda quando fiquei com depressão e só o que havia em mim eram ossos. Me desesperei quando voltei a ser sã e engordei um pouco. Quis morrer quando vi que agora eu tenho uma barriga. Pensei até em fazer lipoaspiração. Por que? Porque eu queria atingir um ideal maluco que criei na minha cabeça. Não é por aí, não é nada disso, não é assim. Minha vida nunca foi melhor e nem pior por causa do meu peso ou das minhas formas. Era tudo eu que criava.

Felizmente, me dei conta da maluquice que era aquilo tudo e comecei a trabalhar nisso de me aceitar. Fui me aceitando. E hoje, posso falar? Nunca me senti melhor comigo mesma em toda a minha vida. Se eu ainda quero emagrecer? Quero, um pouquinho, quero fazer uns abdominais quando puder, quero fazer exercícios, quero ser SAUDÁVEL, ainda mais depois de passar o que eu passei. Mas não estou morrendo por isso.

Minha vida sexual/amorosa nunca dependeu disso. Sempre foi mais ou menos a mesma coisa, independente de como eu estivesse me sentindo, se estava magérrima, gostosa, malhadinha, com barriga, sem barriga, com celulite, sem celulite, coxuda, de perna fina. Quer dizer, não é PELO CORPO que as pessoas se interessam, UFA! Nem ia querer alguém que se aproximasse de mim exclusivamente porque me achou gostosa. Aliás, eu quero é distância de gente assim. Não tem como dar certo.

As mulheres, há muito tempo e ainda, são criadas para serem BELAS. É essa a função que nos é atribuída. Enfeitar o mundo. Uma mulher pode ser incrivelmente bem sucedida, mas se não estiver dentro do padrão de beleza, vai sempre rolar um "mas é feia, tadinha, né?" como se isso anulasse todo o resto que ela é. Não, chega disso; ninguém nunca disse "tadinho, mas é feio" prum homem bem sucedido. Eu costumava ser muito revoltada com mulheres que achavam que o corpo era sua única arma; agora eu tenho dó e muita vontade de educá-las. Meninas, vocês não precisam de plástica, vocês não precisam de silicone, vocês não precisam emagrecer (a não ser que seja uma questão de saúde). Cada uma tem a sua beleza. Hoje eu me deparei com a lendária Playboy da Adriane Galisteu, de 1995, e vi mulheres lindas, com seios de tamanhos diversos, pêlos em abundância e ralos, pernas finas e grossas, cabelos lisos e revoltos, e pensei: ONDE foi parar a diversidade de formas das mulheres, gente? Só se vê silicone, bunda redondona, coxão, chapinha, socorro! E nas revistas de moda, aquela tristeza anoréxica. Existem magras lindas, é claro. Eu acho a Kate Moss uma gata. Mas essas mulheres representam, atenção, 5% de todas nós. Ou seja, esse padrão exclui os NOVENTA E CINCO POR CENTO RESTANTES. Não dá pra ser feliz assim, né? Não se a gente não criar defesas conscientes contra o mindfuck diário a que somos submetidas.

(Se tem alguém aqui pensando "só tá falando isso porque não se encaixa", por favor, peço que se retire de meu blog e nunca mais volte.)

Então, meninas, por favor, parem e pensem nisso que eu estou colocando.

Além do mais, essas intervenções todas não apenas são uma maluquice pra enquadrar todo mundo em um padrão, mas podem acabar, por exemplo, com a sensibilidade dos seus seios, que passariam a ser apenas objeto de prazer do OUTRO. O que adianta ter peitões se você não os SENTE?

Sobre aquelas cirurgias íntimas, eu não sei nem o que dizer. Aquela moça citada no post abaixo, que andava por Londres enrolada em uma bandeira querendo ser a musa das Olimpíadas, declarou na Folha dessa semana: "a vagina não é bonita e dá pra ficar melhor". Gostaria de me perguntar em que mundo vive essa moça, mas já sei a resposta: no nosso, nessa INSANIDADE COMPLETA. Essa moça é praticamente uma boneca inflável: os peitos são de silicone, os olhos são azul-piscina-lente-de-contato, o cabelo é aplique, a buceta foi retocada. Onde ela quer chegar? Por que? Pra quem? Não pode, gente, isso não está certo. Coitada dessa moça. Ela está completamente perdida.

E se o seu cara acha que você tem que botar mais peito, ou que você tem que engordar, ou que você tem que emagrecer, menina, vocês precisam conversar. Ou ele gosta de você como é - ou, francamente, manda esse homem pastar. Infelizmente, o mindfuck também atinge os meninos e eles vivem com expectativas irreais das mulheres. Inclusive muitos deles sequer sabem do que realmente gostam; ficam apenas no que consideram socialmente bem aceito. Tudo, tudo errado.

A todas e todos, recomendo esta palestra ("Killing Us Softly", que inspirou o título do post) da Jean Kilbourne, que dá corre o mundo falando sobre tudo isso que e muito mais e que me abriu os olhos pra uma série de conceitos que eu achava "normais", mas que na verdade são tão antinaturais quanto... bom, quanto photoshop.

Women and Advertising from Hienz on Vimeo.

Nós não temos como mudar o que a mídia tenta nos fazer engolir.

Mas nós podemos não engolir mais.

*Abracinho*,

c.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*