03 de Junho de 2013

o vazio do começo do resto

passei os últimos dias jogando no lixo tudo de velho, de inútil, todos os entulhos das minhas gavetas, das minhas caixas, toneladas de passado que eu não preciso lembrar. chega dessa vida de acumuladora, para frente, motorista, para frente sem olhar para trás. cansei de guardar memórias que não me servem pra nada, só ocupam espaços que deveriam estar ou vazios, ou esperando algo novo. vazios, sim, porque o vazio também é importante. vazio é respiro, sem vazio as coisas se amontoam, sem silêncio a música não faz sentido.

acho que era isso que vinha acontecendo na minha vida, tudo se amontoando, memórias, caixas, discos, roupas, dívidas, amores, sapatos, fracassos, livros, gatos, não, assim não funciona.

precisava de um pouco de vazio.

joguei sacos e sacos no lixo abrindo espaço para o vazio. 

isso depois de vender uns tantos discos que eu nunca mais escutaria, empilhar um monte de livros que eu não releria, doar sapatos que nunca mais usaria e roupas que eu nem quero mais que caibam. depois de pregar os quadros, colar os fios na parede, trocar interruptores, mudar tudo de lugar para lugares melhores.

as coisas não se resolvem sozinhas. algumas coisas ninguém pode resolver pela gente. não adianta culpar o mês, o ano, os dias frios ou quentes, os outros. algumas coisas só a gente pode resolver. 

ainda mais quando é isso, o que jogar fora, o que manter, onde guardar.

agora eu sei onde tudo está na minha casa. sei onde estão meus cadernos e meus contratos, meus recibos e meus sapatos, minhas meias e meus livros de poesia e meus esmaltes e tudo. tudo eu sei onde fica.

vai ser assim com a vida também.

bem melhor, bem melhor. 

agora já dá pra começar direito o resto da minha vida.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*