08 de Agosto de 2012

ossos cinquentenários

fiquei um mês imersa em uma nuvem. ainda se fossem drogas recreativas, né?

não, não. eu estou doente.

não vou morrer nem nada, ao menos não agora, não que eu saiba.

mas não é nenhuma gripinha.

não aguento mais ficar falando de doença, virei uma daquelas pessoas que chega no lugar e começa a falar de doença, sabe? até fiz alguns novos amigos com isso, e ó, pra falar a verdade, eu gosto do tipo de pessoa que fala de doença, expõe dor, troca essas experiências que envergonham alguns. vergonha alguma. acontece. gosto. sempre gostei. eu leio bulas, sabe? sou cadastrada no bulas.med.br. acho importante saber o que ando tomando.

tudo começou com uma dor nas costas, que virou dor no ombro, que virou dor na lombar, que virou dor no pescoço, que virou dor em toda a minha pessoa até eu descobrir que tenho uma atrose precoce.

da wikipedia:

A osteoartrite ou artrose (artrite degenerativa, doença degenerativa das articulações) é uma doença crônica das articulações e eventualmente dos elementos periarticulares caracterizada pela degeneração da cartilagem e do osso subcondral, que pode causar dor articular e rigidez e redução da funcionalidade articular.

A artrose, a perturbação articular mais freqüente, afeta em algum grau muitas pessoas por volta dos 70 anos de idade, tanto homens como mulheres. Contudo, a doença tende a desenvolver-se nos homens numa idade mais precoce.

é isso. eu sinto muita dor e tomo muitos remédios. parei de tomar alguns deles e preferi analgésicos mais fracos porque não mais suportava viver em uma nuvem de confusão. é isso que os remédios fazem, além de cessar a dor; cessam também qualquer capacidade de concentração e de entender qualquer coisa, consequentemente, me impedem de escrever. outros deles eu vou ter que tomar para todo o sempre. porque eu tenho o esqueleto de uma senhora em mim. eu tenho 33 anos, sabe? não vou dizer que não era para ser assim, está sendo e é o que temos, e temos ossos de 50 anos.

eu realmente não esperava por essa.

mas ó, cabeça está ótima. assim como a pele.

isso tudo me fez pensar, quando consegui pensar - porque foi um processo longo, vários médicos, vários médicos falando merda até encontrar alguém que apontasse o real problema - que eu posso ter perdido muito do tempo que não sabia que me faltava par fazer as coisas que me importam.

e é o que eu faço agora. as coisas que me importam.

escrever livro. lançar livro. escrever mais livros. mais livros. amar as pessoas que eu amo. escrever mais livros. ler. ouvir música. saber mais. saber mais de tudo. saber mais de quem eu amo. saber mais sobre as partículas subatômicas. dormir. acordar. ler. ouvir música. questionar a existência e a importância de todas as coisas. pra alguma coisa isso aqui vai ter que servir, não é mesmo? vai que foi necessário pra dar uma perspectiva real das coisas. vai que.

o disco novo da fiona apple está incrível, escutem. eu estou escutando.

hoje foi um dia bom.

e eu vou dormir.

amanhã eu escrevo mais. tem livro, tem peça, tem um monte de coisa entalada na minha garganta.

logo mais.

stay tuned.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*