Biografia

Dez anos é uma vida – mas pouca gente sabe usar uma vida com tanta intensidade e vigor quanto Clara Averbuck. Uma breve recapitulação: No fim dos anos 90, o mundo da literatura brasileira era bem chato. Os grandes autores continuavam grandes, e os novos... Bem, os novos nunca deixavam de ser novos porque desapareciam antes mesmo de vingarem. Seguindo um modelo quase punk rock, a renovação veio da marginalidade.

A principal efervescência estava do Rio Grande do Sul. Um fanzine distribuído pela internet – aquela grande novidade que começava a ligar o país de uma forma excitante e reveladora - começou a conquistar o público leitor e, consequentemente, "exportou" seus autores para o mainstream. Saíram do CardosOnline, o tal fanzine, Daniel Pellizzari, Daniel Galera e Clara Averbuck. 

Clara, nascida em Porto Alegre em 26 de maio de 1979, passou a escrever para revistas como Showbizz, Trip e TPM. Ela também teve uma breve experiência no cinema, interpretando uma prostituta no curta Nocturnu, de Dennison Ramalho (mais tarde premiado em Gramado por outro trabalho, Amor Só de Mãe). E voltaria a esse universo futuramente.

A literatura não estava preparada para Clara Averbuck, mas ela venceu na insistência e no talento. Deixou Porto Alegre para trás e encarou São Paulo na base da pancada. Nessa época, o CardosOnline chegou ao fim e ela criou o agora lendário (e extinto) blog Brazileira!Preta, com o qual formou rapidamente um exército de fiéis seguidores.

A dureza paulistana e a paixão pela literatura resultaram em Máquina de Pinball, lançado pela editora Conrad em 2002. O livro conta a história de Camila, um alter ego da autora, que persegue o amor sem pausa para descanso. Ou melhor, com pequenas pausas apenas para o sexo casual. Ah, e ela também escreve. E sofre. E bebe. E usa drogas. O mais incrível é que, ao juntar tudo isso em um livro, Clara ajudava a romper um tabu de décadas – sim, até o começo dos 00 todas essas atitudes ainda eram repreensíveis em uma garota. "A auto-referência e a estética punk são as principais características, em um mundo repleto de figuras como notívagos, outsiders e afins (dos quais tais artistas fazem parte)", observou o jornal Folha de S. Paulo na época do lançamento. A obra também ganhou destaque em outros jornais, como O Estado de S. Paulo, Gazeta do Povo e Zero Hora, além de inúmeras revistas e sites, da Set ao UOL. "Estar fodida é sair no jornal e não possuir reais para comprá-lo", reclamava Clara no blog.

O ator e diretor Antonio Abujamra tem uma opinião semelhante. "Difícil ver uma contemporaneidade mais poética em brasilidade", escreveu no prefácio da obra. "É um livro que os que sabem ver a coisas e os que não sabem ver as coisas lerão como alimento indispensável para devorar seus contentamentos." E foi pela adaptação de Abujamra e Alan Castelo que Máquina chegou aos palcos cariocas. Na seqüência, a autora recebeu uma proposta do diretor Murilo Salles para a adaptação cinematográfica do livro, que chegou às telas como Nome Próprio em 2008, com Leandra Leal no papel de Camila. O projeto havia sido selecionado entre outros 800 pelo Instituto Telemar e recebeu R$ 1 milhão e seguiu recebendo prêmios especializados, tanto para Leandra quanto para o diretor de arte Pedro Paulo de Souza.

No embalo de Máquina de Pinball, Clara começou a escrever Vida de Gato – precedido pela coletânea de textos do Brazileira!Preta, Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante (7 Letras). Paralelamente, Clara Averbuck foi publicada pela primeira vez no exterior, em uma coletânea portuguesa de nome sutil, Putas, e também integrou a coletânea 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira.

Enquanto esperava a publicação do novo livro (Vida de Gato, uma espécie de continuação de Máquina de Pinball, seria lançado mais tarde, pela Editora Planeta e publicado no Reino Unido pela Future Fiction), Clara retomou uma paixão antiga e formou o grupo Jazzie & os Vendidos, uma banda de rock com um pé e meio no blues. Ela era a vocalista. A banda era feita de coração e instrumentos, mas chegou ao fim em 2005. Mais tarde esse mesmo espírito seria reencarnado em outro projeto, o Oneyedcats. 

Nossa Senhora da Pequena Morte veio em um formato diferente: um volume peculiar, assinado, numerado e limitado, alojado dentro de um disco de vinil, com textos e ilustrações integradas. As folhas vêm soltas. Os vinis foram garimpados em sebos paulistanos, e as ilustrações e concepção foram uma parceria com a designer e ilustradora Eva Uviedo.

Eu Quero Ser Eu, um romance adolescente, foi contemplado pelo Programa Petrobrás Cultural, e chega logo mais às livrarias. Antes dele, Cidade Grande no Escuro (2012) reuniu textos que haviam sido publicados em sites, revistas e jornais ao longo da última década – e acompanhou o relançamento de Máquina de Pinball, Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante e Vida de Gato, todos pela Editora 7 Letras.

Parece muita coisa para só 33 anos. Só que tem mais: enquanto escrevia, Clara passou por todos os cantos. Todos mesmo: trabalhou para o portal Vírgula e no Portal R7, fez vídeos para a internet e até desenvolveu um piloto para a televisão. Tudo isso enquanto criava a filha Catarina. E vivia. Intensamente. Em uma década que, para uma pessoa média, corresponderia a uns 100 anos. Felizmente, para ela e para nós, é só o começo.

Paulo Terron





Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*