29 de Janeiro de 2012

`Papo de Mina`

Bom dia, boa tarde, boa noite.

Esses dias apareceu um tal texto dum tal site de uns tais machões. Era de uma suposta menina. Eu e umas moças desconfiamos, botei a fotinho da `autora` no google images e apareceu o perfil de uma mina lá bem longe, que provavelmente não gostaria nada de ter sua foto usada numa coluna que, desconfio, seja escrita por um grupo de machinhos, como era a revista Claudia antes de ter colunistas mulheres para aconselhar suas perdidas leitoras. Porque né, o referido portal onde texto da `autora` está é praticamente uma revista Claudia para meninos equivocados.

Porém, da primeira vez que li o texto, acreditei ser de uma mulher, mesmo. Uma mulher muito esquisita e totalmente equivocada. Mas de uma mulher. Não tenho total certeza de que seja de um homem. Há muitos indícios disso. Mas, no final das contas, é desimportante se o autor foi uma mina ou um bando de caras `espertos`. O problema é o texto e a mentalidade tampinha que ele reflete.

Vamos responder, então, à `autora`.

eu tenho uma amiga cujo tesão é transar com negros. ela é adepta fervorosa da máxima “once you go black, you never go back”. não vale mulato, pardo, nada – tem que ser negão. é seu fetiche. ela sai às quintas-feiras para um pagode no capão redondo e lá se acaba. não a julgo pela sua tara.

Por que julgaria? É como julgar um cara que tem tesão em loira. Em ruiva. Não chamaria de fetiche; chamaria de gosto.

Prossigamos.

Mas recentemente ela criticou uma menina da faculdade porque “Fulana namora Beltrano só porque o pai dele tem dinheiro”. Como se se envolver com um herdeiro de sobrenome tradicional fosse um pecado.

Olha só. O motivo pelo qual se deve namorar o Beltrano, o Fulano e até mesmo o Ciclano é amor. Amorzinho, amorzão, enfim, amor. Coisas em comum. Esse é o meu jeito selvagem e maluco de ver o mundo. O dinheiro, olha, é tão desimportante quanto, sei lá, ele gostar de castanhas.

Caralho, quer coisa mais afrodisíaca que uma conta bancária polpuda? Que cabeças de gado em Mato Grosso? Que um carinha com um carrão bacana, um cangote cheirosinho e que te pague o jantar?

Quero. Isso pra mim chega a ser um pouco broxante. Não vejo problema no broto pagar a conta vez que outra, mas não faço a menor questão. Eu trabalho, sabe? E mais: quando EU chamo o cara pra sair, gosto de pagar a conta. Me intimidam os caras com muita grana, talvez eu tenha o problema contrário ao seu. Não gosto que me banquem, tenho a impressão de que o sujeito que quer pagar tudo quer me controlar. Thanks but no, thanks.

"Fodam-se os pobres; fodam-me os ricos"

o.O

Faz uns três anos que decidi só fazer sexo com caras ricos. Nada de contar caraminguás para pagar motel chinfrim. Nada de ouvir que “não vamos sair hoje porque ainda não caiu o salário”. Não. Hoje, quando mais grana no banco, mais molhada eu fico.

E emprego, você já pensou em ter? Outra dúvida: como você faz a triagem? Vou contar meu jeito maluco e selvagem de ~escolher os caras~: primeiro eu gosto do jeito que ele pensa. Depois eu vejo se pegava (ia dizer "se acho gatinho", mas não é bem esse o critério). Depois eu vejo se há alguma química. Depois eu convido pra sair. Depois, sei lá, depois a gente vê.

Eu nasci de bons genes. Tenho um corpo do qual me orgulho, um cabelo sempre hidratado, não tenho odores e meus dentes estão sempre brancos. E a vida me ensinou a foder bem. Por que não usar isso, essa minha sorte de ter bons genes e essa experiência sexual, da forma que eu achar melhor? Resolvi juntar isso tudo ao meu gosto por coisas caras.

De novo: e trabalho, não?

(Essa é a parte onde a gente começa a desconfiar que é um cara escrevendo. ...`Dentes sempre brancos`? `Não tenho odores`? Hum)

É uma puta hipocrisia criticar quem escolhe pessoas ricas para se relacionar. Já ouvi muito as pessoas apontarem o dedo para as atrizes globais que namoram empresários, para as Neymarzetes, para as loiras de farmácia que ficam no pé dos pagodeiros e sertanejos. Eu adoraria perguntar para as recalcadas que criticam esse comportamento:

`As recalcadas`, risos.

“Você namoraria alguém que ganhasse um salário mínimo se tivesse a oportunidade de namorar alguém que nem faz ideia de quanta grana tem?”

Eu namoraria alguém SÓ se essa pessoa conseguisse conversar comigo sobre coisas interessantes. E entendesse piadas. E se eu tivesse tesão nele. NELE. Não no dinheiro dele.

Ou então:

“Você prefere que seu marido te busque no trabalho com uma Mercedes ou com um Fusca?”

Me busque no trabalho? Por que meu marido teria que me buscar no trabalho? Aliás, seguindo essa lógica: que trabalho?

Ou ainda:

“Você não trocaria o picadinho da birosc onde você janta pelo Fasano?”

Ai, amiga. Sabe, o picadinho e o (superestimado e supercaro) Fasano não são as únicas opções na vida de uma garota. Aliás, Fasano? Sua cafona ;-)

Você prefere rasgar uma camiseta da marca "25 de Março" ou da marca Tommy Hilfiger?

Se for pra rasgar alguma coisa, prefiro rasgar coisa barata, porque dinheiro, meu ou dos outros, não dá em árvore.

Você já pensou em, sei lá, só uma idéia maluca, comprar as coisas com o seu dinheiro? Já que a genética é tão boa, deve servir para os negócios também, não? Não, pelo jeito.

De qualquer forma, ~rasgar dinheiro~, no meu tempo, era coisa de gente doida.

Talvez você pense que eu me sinto melhor que você, que sou metida. Eu não me sinto superior por gostar de caras ricos, mas sim porque não sou hipócrita. Porque tenho pés no chão para saber que, se eu me apaixonar por um cara pobre e a gente desenvolver um relacionamento, a vida será mais difícil. Será como antes.

Eu também não sou hipócrita. Estou longe disso. Mas é muito difícil entender esse raciocínio seu. Você é uma garota bem resolvida, ao que parece. Livre, né? E gosta de ser livre. Escreveu esse texto nesse tom faço-o-que-eu-quero e tal. Acredito que faça mesmo. Faço votos. Mas desculpe, `não sou puta` não combina com o discurso.

É ilusão achar que controla o cara com a buceta. Não é assim que se faz. Aliás, controlar as pessoas não é nada legal. Nem controlar, nem se deixar controlar. Mas, de novo, é só minha visão selvagem e maluca do mundo.

A vida já foi mais difícil

Eu tive dois namoros sérios até hoje. Os dois com homens pobres.

Hum.

Um foi no fim do colegial, com o cara que tirou minha virgindade. Ficamos juntos três anos, do segundo colegial ao primeiro ano de faculdade. Ele não trabalhava e sempre era um sufoco sair para um cinema ou uma festa. Passei muito fim de semana no sofá da casa da mãe dele vendo filmes da TV aberta. Isso é um inferno!

O problema não era ele `ser pobre`. O problema era ele não trabalhar. E olha, desculpe, eu não sei o que você gosta de fazer, mas existem MILHARES de coisas além da TV aberta nessa vida. Sem dinheiro, mesmo.

O segundo namoro sério surgiu na faculdade. Eu estava no terceiro ano de Fisioterapia e ele, no quarto. Ele trabalhava, mas na clínica do pai. Imaginem que, para a família dele, ele estava cuidando do lugar que seria seu no futuro, o que significa que não ganhava nada além do mínimo. Ele era meio escravo do pai e eu, junto dele, era arrastada à senzala: sempre sem grana para sair, para um presente mais surpreendente…

De novo: o problema era o cara, não a falta de grana dele. Se deixava controlar pelo pai etc etc. Mas enfim, todo mundo tem problemas, né?

Nos dois casos eu pensava:

“O que vale é a beleza interior. É a riqueza de espírito.”

Realmente, os dois sempre foram muito bons para mim. Não posso reclamar deles como pessoas, como homens. Mas rola uma pequena mágoa cada vez que você deseja fazer algo diferente, sair da rotina e o cara não é parceiro.

Certo. Você esperava que eles bancassem a parceria, então.

Não quero passar por isso de novo.

Não passe.

Além disso, hoje em dia, eu considero a “riqueza de espírito” também, mas tento enxergá-lo nos homens ricos. Não é porque um cara tem muita grana que ele é um escroto.

Não, mas é por causa de declarações como esse que 99,8 dos homens muito ricos acham que podem comprar quem eles quiserem. E isso não se resume só a mulheres.

“Não sou puta”

Hum.

Não que todo homem deve me pagar algo. Não sou puta. Muito pelo contrário, muitos homens não me pagam jantares ou dão presentes. Mas apenas o fato de eu estar numa cama com um lençol de trocentos mil fios, num ofurô que eu sei não conter bichos na água ou mordendo uma bundinha que eu sei que foi cuidada a talco importado, já fico feliz.

Certo. É que puta trabalha, né.

Quem precisa de mojo quando tem em mãos uma moedinha da sorte?

Por isso gosto tanto de judeus. Eles fodem relativamente bem (não com muita força a ponto de me machucar, não com muita paixão a ponto de eu pegar nojo). E são circuncidados, o que deixa o pau com uma aparência bonita. É um pau aristocrático, quase. Mas não faço questão de dar apenas para judeus. Em sexo, sou ecumênica.

Ô, meninos. Deviam ter dado pra alguma amiga ler. Agora ficou até chato. `Não com muita paixão a ponto de eu pegar nojo`

Risíssimos

Anote aí: se o Tio Patinhas fosse um homem de carne, osso e pau, eu daria pra ele. Se o Riquinho esbarrasse em mim na academia, eu daria pra… Bem, seria pedofilia, mas eu daria pra ele. E daria a noite toda.

Que fique claro, `gata`, meu problema não é pessoal com você. Meu problema é esse tipo de pensamento que faz com que qualquer homem almeje ter grana pra comprar as gatas. Meu problema é com os caras endinheirados achando que podem controlar a vida da mina que está com eles com grana. Com os caras acharem que todas as mulheres são assim porque uma, ou umas, agem dessa forma escrota. E olha, com esse discurso, se isso tudo fosse mesmo verdade, a mina não ia conseguir dar nem pro dono da Rede Galinha Morta.

Nem com os bons genes.

Nem com uns bonks drinks.

Menos, né?

Um forte abraço,

c.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*