08 de Abril de 2011

persona non-grata

eu nunca fui uma garota popular.

na escola eu simplesmente não fazia questão. sempre tem as panelinhas: as gostosas, as patricinhas, as nerds, as feias, as rejeitadas, as esquisitas. eu era esquisita. mas não era rejeitada, só diferentona. me relacionava relativamente bem com todos os grupinhos, só não fazia questão nenhuma de pertencer a eles. nunca tive essa necessidade de auto-afirmação e aceitação, pelo menos não da maneira óbvia. acho que eu tentava me impor de outras formas. ou simplesmente nem tentava. não sofria exatamente de rejeição porque não tentava forçar a aceitação. eu era eu. devo isso aos meus pais, mais especificamente à minha mãe, que sempre me incentivou a ser *eu*. tive um momento de paixão por um futuro coxinha na escola, o que acabou me rendendo umas boas histórias, mas nunca deixei de ser eu.

muitos anos se passaram e eu acho que continuo muito parecida com o que sempre fui. mas agora tem toda essa exposição, né? e exposição cria discussão. e discussão leva ou à aceitação, ou à rejeição.

desde que comecei a publicar, lá por 1997, lido com rejeição, com gente incomodada pela minha existência, minha maneira de fazer as coisas, de pensar, de opinar, de me vestir, de existir. e me pergunto: por que se incomodam tanto? se não gostam, não leiam, não procurem, não vejam. e, principalmente, não se incomodem. sabe, eu não fico indo atrás do que me incomoda com tanta coisa legal pra ver neste mundo, tanta música, tanto livro, tanto filme, tanta gente legal pra prestar atenção. quando me pronuncio contra algo é porque eu acredito que devo expor um problema, um sintoma da sociedade cagada em que vivemos. uma coisa é criticar. outra é implicar e se incomodar com algo que não tem nada a ver com a sua vida. e outra ainda é fazer piada. piada pode, gente. nunca reclamei de piada. e eu critico mesmo uma caralhada de coisas mas nunca é pessoal, ou quase nunca; discordo da maneira de viver de muita gente, mas não tento mudar, me meter, execrar. claro que isso não se aplica àqueles que pregam o ódio, que pregam o preconceito. vocês sabem do que estou falando.

minha avó sempre me disse: cadum cadum. é tão simples, né? deveria ser. falar da vida alheia é uma coisa tão triste, uma evidência gritante de falta de vida própria. vejo gente discutindo minha vida por aí baseadas em um programa de tv que foi todo editado tendenciosamente. tv é entretenimento, alguém aí não sabe disso? poxa, cesjuram que acreditam em tudo que vêem na televisão? que merda, hein. mas enfim, eu sabia que estaria sujeita a julgamentos. todos sempre estamos. meu problema é a certeza e a propriedade que muita gente tem pra afirmar absurdos. "clara não nasceu pra ser mãe". escuta, cada um cria seus filhos da maneira que acredita. fui criada de maneira peculiar e curto muito o resultado disso. não farei diferente com a minha filha. e vocês lá sabem como eu crio a minha filha baseados em três horas de um programa de televisão que evidentemente visava polemizar? gente, por favor, o que vocês andam tomando?

ando muito defensiva. ontem li a entrevista que dei para a revista inked e fiquei surpresa com minha própria agressividade. não sou agressiva mesmo, quem me conhece sabe bem. não sei se me senti muito vontade porque a entrevista foi feita por meu amigo thiago perin, que me conhece super bem, e por isso deixei de ter um certo comedimento. só sei que é um festival de palavrões, pareço o bob cuspe da literatura dando uma entrevista com pose de adolescente punk que diz "whatever, dude". depois reli a entrevista e vi que eu sou assim mesmo, toda sujeita a mal-entendidos e interpretações erradas - e que o thiago simplesmente transcreveu o que eu disse. acontece que o tom nunca está impresso. e o tom é muito importante sempre. e aí? aí que eu digo no final: foda-se o que vão pensar e a maneira como vão me ver. eu sou isso aí. e é verdade. eu sou isso aqui. tem mais, claro. sempre tem mais. mas eu não tento parecer algo que não sou e nem me explicar (peraí, o que eu tô fazendo agora? rá). se eu ficar tentando escrever minha própria bula, vou acabar louca me justificando pro mundo. dá não, gente. cada um entende como conseguir. porque eu continuo não sendo uma garota popular e não fazendo a menor questão de ser aceita por todos. não tenho vocação pra tentar agradar.

nunca fui uma garota popular e não é agora que pretendo ser.

<3


Clara Averbuck é escritora

Instagram

  • Twitter
  • Facebook
  • RSS

Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*