26 de Fevereiro de 2013

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Pó de Parede Revisited

Estou reformando minha casa.

Quer dizer: estou reformando minha vida.

Encontrei meu apartamento devastado quando voltei de viagem. Pó de parede no chão, pó de parede nos móveis, nos discos, nos livros, nos sapatos, entrando no meu nariz quando abri a porta, pó de parede por todos os lados, marcas de chinelo por todos os cantos de todos os cômodos e cheiro de tinta a todas as horas do dia e da noite e dias da semana também. Hoje tinha pó de parede dentro do armário do banheiro, em cima dos cremes, nas cerdas das escovas, nos estojos das lentes.  As coisas todas amontoadas, espaço para nada, apenas para o caos. A pintura está quase no final, mas a reforma não está nem na metade.

Que dureza.

Não sei lidar com reforma, não sei lidar com essa zona, não sei mais lidar com caos. Nunca soube, apesar de ter vivido boa parte de minha vida adulta entre caixas, mudanças e pilhas de coisas que criavam vida própria e engoliam meus pertences em maçarocas que eu nunca consegui desfazer. 

A Polly me fez perceber que sou um pouco hoarder. Um pouco. Só um pouquinho. Só porque coleciono garrafas de bons momentos e também porque tenho uma caixa com todas as cartas que recebi na vida e umas outras duas com "memórias", tipo todas as chaves de todas as casas que já morei. Só porque eu queria trazer uma garrafa de Delirium Tremens que eu bebi lá em Londres (acabei de perguntar pra ela como está minha garrafinha, fiquei com saudade ;~), só porque eu acumulo memórias físicas, talvez por medo de que as lembranças se esvaiam - e elas se esvaem, a gente sabe. Em alguns casos, que bom; talvez a tal memória seletiva seja uma maneira das nossas mentes de nos manter na linha da sanidade. Ou não, ou sei lá. Estou tentando me curar, até joguei fora uns memorandos internos da casa, circa 2009. Baby steps.

O fato é que eu não consigo mais criar no caos. Lugar de caos é do lado de dentro, aí sim dá pra lidar, mas assim, no meio de montanhas de coisas e com minha filha querendo ver Harry Potter no único computador da casa, assim, com fios se enrolando aos meus pés brancos, assim não dá. 

Tenho pensado muito nisso. E me dei conta que tenho escrito sobre não escrever. Metalinguagem torta.

Na virada do ano comecei um livro sobre uma escritora que não consegue escrever. Ela aluga um chalé no mato pra terminar um livro e se incomoda com as cigarras e os insetos e a natureza e falha miseravelmente na missão. Parei ali. Ela ainda está lá no mato reclamando.

Quando eu era jovem, bem jovem, não era tão chata, escrevia em qualquer lugar, no caderninho no meio da balada, em lan house, na mcinternet, em qualquer computador disponível de qualquer pessoa em qualquer lugar. Qualquer lugar mesmo. 

Agora a Tia Clara não está conseguindo lidar.

Tenho mil começos de mil coisas, roteiros, textos, argumentos, justificativas, emails, livros, livros, livros. Não termino nada. Não sei o que está acontecendo. Talvez eu simplesmente não tenha mais aquela pressa louca de jovem pra terminar logo e ver tudo publicado. Talvez eu esteja ficando preguiçosa e desperdiçando tempo e ideias. Talvez seja uma nova fase de um novo processo onde eu vou ter que encaixar escrever com fazer almoço-levar filha na escola-resolver a burocracia da vida-buscar filha na escola-ajudar na lição-fazer jantar. Não lembro como era antes, mas não era tão difícil. 

O tempo durava mais. A filha era menor. Eu tinha ajuda. Realmente não sei como eu fazia, mas eu fazia, e se fazia, consigo fazer de novo.

Assim espero.

Assim que acabar a reforma.

Como eu disse, minha vida está em reforma.

Depois do caos, vai ficar bem melhor. 

Vai, 2013, estou botando uma fé em você. Continue assim, na linha, e poderemos ser grandes amigos. 

Não tente ser como 2009, 2010, 2011 ou 2012, por favor. 

Continue assim, bonzinho. 

Boa noite, tá? Que amanhã o pintor chega cedo.

*Sigh*

c.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*