23 de Julho de 2013

Progressões de balcão

No bar:

- Tá esperando alguém?
- Não.
- Tá sozinha?
- Tô.
- Aceita companhia?
- Tô sozinha porque quero.
- Mas e vem pro bar ficar sozinha?
- Saí porque queria ficar sozinha.
- É casada?
- Não.
- Mora com alguém?
- Com os gatos.
- Por que precisou sair pra ficar sozinha, então?
- Porque eu quis, moço.

Silêncio.

- O que você faz?
- Sou escritora.
- Ah, é? E escreve o que?
- Livros.
- De que tipo?
- Livros de histórias.
- Que tipo de histórias? Contos, romances?
- Os dois.
- E de onde você tira as suas idéias?
- Das ruas. Da vida. Sei lá, as idéias vem.
- E o que mais?
- Como, o que mais?
- O que mais você faz? Você vive de escrever?
- Vivo de escrever muitas coisas.
- E dá dinheiro?
- Não acho essa pergunta muito polida, moço.
- Relaxa, baby.
- Não me chama de baby.
- Entendi agora por que você é sozinha.
- Eu sou sozinha porque quero.
- Duvido. Ainda mais tratando as pessoas assim, seca desse jeito.
- Estou apenas respondendo as suas perguntas.
- Mulher tem que ser simpática.
- Mulher, meu querido, tem que ser como quiser.
- Assim você não vai conseguir homem. Homem nenhum gosta de mulher com cara de merda.

*Suspiro*

- Amigo, você está bem equivocado nessa vida, hein?
- Tô apenas tentando ajudar.
- Olha só, eu disse que saí pra ficar sozinha e você está aqui tagarelando nos meus ouvidos. Está me ajudando em que, exatamente?
- Sei lá, tô tentando melhorar essa sua cara.
- Eu estou ótima.
- Mas não parece, bebendo, sozinha aí.
- Ninguém nunca te ensinou que não se julga um livro pela capa? Eu estou ótima, moço.
- Duvido, sozinha no balcão...
- Eu estava sozinha, estava sozinha porque queria. Agora você está aqui falando comigo.
- Posso te pagar um drink?
- Não.
- Por que?
- Porque eu tenho dinheiro pra pagar meus drinks.
- Você é o que, feminista, é?
- Sou.
- Ih, sabia. Feminista não gosta de homem.
- Feminista não gosta de gente que invade espaços e caga regras, moço. Moço, você é chato, será que eu poderia continuar em silêncio curtindo minha cerveja com 10% de álcool sem você estragar o momento?
- Aff, fica à vontade, ô mal comida.
- Moço... Sai daqui?
- Logo vi que era assim, sentada aqui com essa cara. Também, gorda desse jeito, ninguém deve querer.
- Moço, não me obrigue a desperdiçar minha cerveja cara na sua fuça.
- Puta.
- Tchau, moço.



Clara Averbuck é escritora

Instagram

  • Twitter
  • Facebook
  • RSS

Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*