22 de Maio de 2009

Self Destruction Blues



Sou a favor do tabagismo. Na verdade, sou a favor do direito ao tabagismo. Algo como “ai, me deixa, não, me peguem no braço”. Mas também sou a favor da nova lei. Vai ser difícil. Vai ser torturante. Mas estou prestes a me tornar uma balzaquiana e decidi tentar ser mais altruísta. Claro que os não-fumantes têm direito de não respirar a fumaça alheia e manter seus pulmões e roupas limpinhas, cheirosas e asseadas e viver até os noventa anos fazendo pilates. Nós, fumantes, também queremos chegar em casa em um estado decente, sem o cabelo feder e as roupas direto cesto sujo. Mas onde vamos fumar nosso cigarrinho em paz? Em casa. Socialmente não pode. Não pode. Fumantes são tratados como anomalias, como seres imundos e fedorentos que devem ficar lá fora, lá longe, isolados de qualquer contato social e olhados de soslaio pelos não-fumantes. Ou pelos ex-fumantes, que são piores ainda.


Vamos pensar em algum lado positivo nisso. Quando fui a Nova York fiz vários amigos fumantes que tinham ido ali na rua fumar um cigarrinho. Ainda bem que era verão. Não deve ser nada agradável ter de fumar na rua, no frio, na neve. Nem os mendigos estarão lá para fazer companhia, porque lá só é mendigo quem quer e ninguém quer ficar na neve.


Mas não é só lá. Em todos os lugares fumantes são tratados como doentes. Só falta adicionar naquelas plaquinhas afixadas nos elevadores “é proibida a discriminação por raça, credo e tabagismo”. O que pretendem com isso? Dizem que é para reduzir as mortes causadas pelo cigarro. Desculpe, mas eu sei e todos os fumantes sabem que fumar não é uma coisa saudável que nos leva a longevidade. Sem essa de ficar processando a companhia de cigarros quando ficar com os pulmões podres e morrer de câncer. É como processar uma marca de uísque alegando não saber causar cirrose. Nada errado em avisar que o fumo faz mal, assim não tem mesmo como encher o saco depois. Mas tentar proibir as pessoas de fazer o que elas bem entendem é terrível. Dá licença se eu quiser morrer?


E agora, como fica aquela velha cantada, a mais usada depois de “você vem sempre aqui”? A infalível e inegável, além de dúbia “tem fogo”? E agora, quando quisermos ter um ar blasé, como fica? O que a gente sopra com a sobrancelha levantada, um catavento? O que a gente faz para esperar no balcão do bar, rói as unhas? Limpa o ouvido com o dedinho? E para comemorar algo, fazemos o que, acendemos um incenso? Não dá, não dá. O que vai acontecer – comigo – é que vou começar a comprar bebida pra poder me entorpecer e fumar no conforto do lar. Então por favor, parem de nos aconselhar e deixem que cuidamos da nossa própria auto-destruição.


Clarah Averbuck é escritora, tem quatro livros publicados, adaptados para teatro e cinema, canta na banda Oneyedcats e fuma há aproximadamente 15 anos. E tem uma pele ótima.

(texto publicado na Revista da Folha do último domingo aí)


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*