07 de Maio de 2012

sinfonia do fracasso número 01

enfia essa sacolinha no rabo, eu quis dizer. ia mandar usar de pára-quedas e pular janela afora, mas lembrei que agora tem tela, impossível, impossível. você sabe o caminho da porta, eu disse, já borrando todo o rímel, evitando andar os quilômetros do corredor porque né, ele ia achar que era cena, ele não acredita em nada que eu digo. que desperdício de rímel.

achei que era hoje. mas não. não.

não; veio aqui tentar esfregar na minha cara que eu sou o que não sou com um rosto inchado e uns olhos vermelhos. te conheço, não me venha com essa, nem eu conseguiria disfarçar esse despedaçamento, eu, a dissimulada. eu, a escrota. eu, igualzinha à vilã que os outros pintavam. essa clara aí.

essa aqui é outra. só eu sei o que tem dentro da casca. você não chegou a ver. quase viu. viu um pouquinho. foi o que pegou. uma pena, eu não consegui mostrar tudo. incapaz mesmo, um horror de fracasso. desculpe. não consegui. if only.

conhece tão pouco, tão nada de mim que me imaginou andando de roda gigante e bebendo champanha com homens de sunga, rindo e vivendo a valer. meu querido, se você soubesse que onde eu estava sequer havia uma cama, que não havia sono contínuo e minha coluna está escangalhada e que pensei em você a cada segundo de cada minuto de cada hora de todos os dias, talvez baixasse essa guarda e calasse essa boca. boca não é só pra falar; calar às vezes é bem mais sábio.

pé na bunda que menos fez sentido na vida, começou comigo indo embora por nada de manhã, eu e as minhas coisas todas, e terminou com você dizendo que gostava muito de mim e eu dizendo que mas eu também, eu também! então tchau, vou te esquecer.

vocês não aprendem, vocês meninos nunca aprendem que não se joga amor no lixo. não se encontra na esquina, não adianta ter gente oferecendo, não funciona assim. só funciona quando funciona. não quero provar que estou certa. só queria tudo bem, ainda dá tempo, dava tempo, sempre dá. não se joga amor no lixo.

mas não. eu sou má, eu não mereço. eu mereço o pior, eu mereço sofrer. quanta maturidade, meu amor, quanta besteira.

eu pronta pra te chamar pra ir praquela ilha, só nós, tudo certo, nada pra fazer, nada, só existir, como você gosta, existir, comer, beber, ter ideias, eu nua e você de cuecas (porque você acha que homem em pêlo é feio).

vai lá fazer roleta-russa com sua pica de ouro, então. não tem essa de arruma outro otário, eu não preciso de outro, eu fico sozinha. durmo sozinha, saio sozinha, trabalho sozinha, bebo sozinha e vivo sozinha, porque já era pra ter sido nunca mais.

(volta)


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*