03 de Setembro de 2012

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então combinamos de fazer mil coisas, era evidente que daria tudo tão certo, era tão bonito, tínhamos uma espécie de telepatia, pensávamos as mesmas coisas, compartilhávamos a mesma visão de mundo, de tudo. no começo ficamos assustados, ninguém viu como aconteceu e era demais, enorme, tudo muito forte, tudo incontrolável, tão certo, tão bonito. fizemos todos os pequenos planos, planos de amorzinho, planos de viver o trivial. ele exercia sobre mim um fascínio enorme, eu ficava hipnotizada, leve, parva, encantada. esqueci o resto do mundo, era só ele, ele, ele. eu achava que isso nunca mais aconteceria, igualzinho à primeira vez.

mas ele tinha medo, ele era um menino que acreditava ter uma vasta experiência na vida e no sofrimento, como todo menino acredita. eu dizia que ele precisava viver, que precisava se arriscar, que o que vale na vida é o sangue correndo nas veias. aos poucos ele foi se entregando pra mim sem notar e foram os meses mais lindos dessa vida, mesmo com toda a juventude e a insegurança e o medo e a fragilidade que nunca cediam. eu achava chegaria o momento em que ele conseguiria se ver como realmente é, único, raro, genial, o melhor.

ele não me deixava ir e não conseguia vir. nunca. uma vez. duas. três. sempre havia alguma coisa errada. fiquei inquieta. aquilo me consumia. precisava dele. queria precisar dele. ele precisava de mim também. era quase um vício inevitável, só crescia e tomava conta de tudo.

eu precisava que fosse real.

fiquei doente. ele também.

ele não vinha nunca. nunca. nunca.

aí ele ficou triste. se afastou. senti que ele ia embora. tentei impedir. não consegui.

ele nunca veio.

ele não conseguiu ver futuro comigo, ele não conseguiu ver nada. escolheu ficar com uma lá que firmava os pés dele no chão. no chão eu não sei ficar, sempre disse que só cai quem voa.

voei e me estabaquei.

foi tão perto, tão pertinho, tão quase.

ele não conseguiu tentar.

ficamos sem romance, sem começo e sem ponto final


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*