11 de Maio de 2011

sobre machismo e sobre passado

mulher não pode ter passado.

é assim que funciona.

se a garota já foi casada, vish manô. mais de uma vez então, nem se fala. se nunca casou, ih, deve ser encalhada. se teve um monte de namorados é porque não *conseguiu* prender nenhum. se nunca teve namorado e nem marido, só casos, é putana.

livre ela não pode ser, né? livre pra fazer o que quiser?

se fosse homem não tinha problema. é bonito homem comer todas e casar várias vezes. ninguém nem discute isso.

só quero dizer que eu já fui muito apaixonada, muito devotada, muito promíscua, muito fiel, muito feliz, muito triste, muito caseira, muito obcecada, muito boazinha, muito pentelha. às vezes mais de uma coisa ao mesmo tempo. já fui muitas coisas. tenho certeza que você também. ou todo mundo casou virgem? ninguém foi adolescente, jovem adulto, ninguém caiu na putaria? nunca? ninguém nunca encheu a cara, nunca fez merda? nunca chorou por besteira, nunca caiu em cilada? nunca ERROU? nunca persistiu no erro? aham. sei. logo se nota que esse mundo é feito de pessoas decentes, pudicas, puras e corretas.

deve ser chato ter alguém admitindo cagadas na frente de todo mundo. acho que faz com que as pessoas lembrem das suas próprias, aí não fica bacana, fica difícil de esconder umas memórias dentro da própria cabeça.

olha.

eu não tenho medo de admitir as cagadas. talvez assim alguém deixe de cometer algo parecido. talvez assim eu não esqueça e não haja reincidência.

o que compromete o futuro é a ausência de presente.

com o passado a gente tem que aprender a lidar.

bêj.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*