23 de Maio de 2009

Um daqueles dias bons

Primeiro sofri uma tentativa de envenenamento. Oquei, não sei se foi realmente uma tentativa de envenenamento, mas estava lá com meus amigos comendo aquela porção de sempre na Mercearia São Pedro e tomando uma pinguinha e comecei a sentir um mal-estar nada típico. Eu sou forte. Acepipes e uma pinguinha não me causam azia galopante assim, do nada. Os amigos enchendo a mesa e os copos e eu até desconcentrada de tanto enjôo. Depois descobri que era uma virose daquelas de um dia que passei para meu pai e meu namorado (desculpaí, gente), mas na hora eu só pensava: tudo errado. Paguei a conta, virei um sal de frutas no balcão sob o olhar de estranheza do Marquim e fui embora com dois vinis debaixo do braço, um Coleman Hawkings e um da Nina Simone ao vivo comprados do senhor que passa de mesa em mesa e não tem um dos dentes da frente. Cheguei em casa, joguei tudo no sofá, desisti da sala e me fui ao quarto. Deitei ainda de sapatos. Tudo errado. Tomei um chá de hortelã e duas cápsulas de alchachofra. Isso resolveria. Sempre resolve. Ainda mais com ele cuidando de mim com só ele sabe. Mas não. Estava tudo errado. Em dois minutos estava dobrada sobre a privada e jatos desagradáveis jorravam incontidos. O horror. Eu tinha sido envenenada. Minha amiga, que dividira a porção comigo, nada sentiu. Durante meus delírios noturnos em sofrimento estomacal, tive certeza: eu tinha sido envenenada. Não consegui concluir a teoria conspiratória porque a manhã seguinte foi muito pior. Já não sofria mais tanto do estômago, mas estava fraca, apenas, de uma noite deliriosa e mal-dormida. Saí para comer em um restaurante natureba, com comidas leves e sem possibilidade de envenenamento. Tudo correu bem até que toca meu telefone. Era Maria, a moça que trabalha em casa, mulherão esperto e cheio de afazeres. “A Eletropaulo está aqui para cortar a luz, tem comprovante que eu possa mostrar?” Tinha. No computador. Disse a ela para dizer ao moço que esperasse cinco minutinhos, me enfiei em um táxi e corri para casa. Em vão. Cheguei e a escuridão se tinha feito. Desci correndo com o computador e os comprovantes salvos do sítio do banco. “Não podemos aceitar no computador, tem que imprimir”. Tentei explicar em vão ao moço cheio de má vontade que seria exatamente a mesma coisa imprimir e mostrar na tela do computador. Não. Ele precisava de um pedaço de papel. Ainda tentei ligar para a Eletropaulo para esclarecer o absurdo, mas só serviu para o moço do outro lado da linha me avisar que eu precisava quitar mais um débito, o que havia vencido no dia anterior. Certo. Voltei à escuridão do meu apartamento para deixar meu notebuck e percebi que estava tão escuro porque o tempo tinha fechado e que, enquanto estivera no elevador, a maior tempestade do país tinha se armado lá fora. Bem na hora em que eu precisava ir até a lotérica – se eu fosse ao banco seria muito mais trágico. Peguei um guarda-chuva e corri para a rua, torcendo para dar tempo. No exato momento em que botei meus pés na calçada, o mundo caiu. O guarda-chuva envergava para todos os lados possíveis. O vento uivava. Os bueiros transbordavam alegremente e eu maldizia todos aqueles que jogam lixo no chão. Ouvi na minha cabeça vozes gritando “Leptospirose! Leptospirose!” quando senti aquela água de cor indescritível tocando meus pés quase nus de melissa Campana. “Leptospirose! Tomara que não tenha fila”. Tinha. Imensa. E o mundo caía lá fora. Um caiaquinho ia bem, pensava eu enquanto pedia para uma moça simpática guardar meu lugar na fila para que eu fosse no banheiro lavar os pés e não contrair leptospirose. Fui rápida, ainda que minuciosa, e voltei para a fila, que mal tinha se mexido. Finalmente consegui pagar as contas e dei aquela aproveitadinha pra jogar na megasena, nunca se sabe. Um dia acertei os três primeiros números na ordem e quase tive um AVC. Bom, correndo para casa com meu guarda-chuva em frangalhos e a chuva ainda castigando (leptospirose! Leptospirose!) descubro que os simpáticos rapazes da Light já tinham passado por lá para religar a luz. Eu não estava. Eu estava pagando as porcarias das contas. E lá fui eu telefonar de novo para as moças treinadas do telemarketing para resolicitar a religação da luz. A moça não entendia. Eles já tinham estado lá. A essas alturas a minha paciência, que já não é de ouro, estava em erupção. Finalmente a moça treinada do telemarketing entendeu e me deu aquele agradável prazo de quatro horas. Meu ipod estava sem bateria, não dava para ler porque estava escuro demais, não havia nada a fazer senão padecer nas trevas. Resolvi ficar na varanda tomando chuva para aumentar meu drama e porque meu interfone não funcionaria se a Eletropaulo chegasse– ele não funciona sem luz. Mais ou menos duas horas depois os moços apareceram. Nunca fiquei tão feliz de ver uma pessoa de uniforme na minha vida.

Hoje, em pleno inferno astral, depois de ter pago as contas com meu dinheirinho suado, acordei, fui para a penteadeira (sim, eu tenho uma, onde inclusive estou sentada na foto lá em cima), liguei a luz e a luz não ligou. O pagamento não tinha entrado no sistema. Foi necessária a operação complicadíssima de levar notebuck e impressora até a casa do zelador para que religassem a luz. E, repito, as contas estavam pagas - mas não tinha entrado no sistema. Sistema de merda. É isso que eles fazem, eles cortam a luz da pessoa que deixa de pagar um dia de conta, ou, pior, que já pagou a conta. Pensando pelo lado positivo, e olha que demorou para achar um, pelo menos não corro o risco da leptospirose. Quer dizer, vejo uma réstia de sol na cortina, mas estando em São Paulo, vai saber... Pode até ser que eu me afogue.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*