12 de Outubro de 2011

Um Gato no Cérebro

Eu trabalho no Portal R7. Além de fazer vídeos diários no Ex-Tricô, sou redatora de humor. Isso significa que preciso fazer plantão sábado+domingo uma vez por mês e trabalhar em feriados alternados. Hoje é um deles.

Tiram muita onda da minha cara aqui, especialmente a dona Lele Siedschlag, porque eu vim do ~underground~. Gostem ou não, vim mesmo, jamais negaria. Eu não faço idéia de quem sejam essas subcelebridades e isso é parte da graça do Ex-Tricô. Lele é a expert e eu estou genuinamente cagando pra essa gente toda. Nunca tinha assistido um BBB na vida, não sei quem já passou pelo programa, nunca tinha visto A Fazenda e olha, sinceramente, não fazia questão nenhuma de ver. Não pela qualidade do programa. É bom. Só que eu não gosto. Não me interesso por reality show. Nunca me interessei.

É bom esclarecer que eu não estou desqualificando o gosto alheio e nem falando que odeio meu trabalho. Algumas pessoas têm sérios problemas de interpretação de texto, então é bom explicar de cara, para que não encham os meus sensíveis pacovás. Dá pra gostar de reality show e traduzir Wittgenstein? Dá. Olhaí a D. Lele. Dá pra assistir BBB e se refugiar no e.e. cummings? Mas é claaaro. Pode gostar do que quiser, sabe. E eu também posso não gostar do que quiser. É uma coisa tão EVIDENTE, né? Não. Não é. Se você fala mal de algo que a pessoa gosta, ela age como se você tivesse dado um tapa na cara da vovó. Falta de dar um pouco de bunda, com certeza.

A TV aberta nunca fez parte do meu mundo. Quando eu era criança, minha família sequer possuía uma TV. Meu pai é músico, minha mãe é fotógrafa e eu cresci com outro modus operandi, uma coisa meio riponga e alternativa, sabe como? Depois veio uma TV, não lembro que idade eu tinha, mas só assistia desenhos mesmo. Não tenho memória de novela, não tenho memória de Sílvio Santos, não tenho memória de nada disso. Lembro muito de livros, teatro e cinema, nessa ordem. Ui!

Eu sei que parece drama, mas tem sido um choque considerável trabalhar num portal que fica dentro de uma emissora de TV aberta. Já trabalhei na MTV, mas é MUITO diferente. Não dá nem pra comparar. A minha participação naquele reality show, cujo nome suprimirei, não teve absolutamente nada a ver com minha vinda pro R7. Eu fui chamada por uma diretora de casting X, não teve nenhuma relação com o portal. Luiz Cesar e Lele, que conheço há anos, foram os responsáveis/culpados pelo meu atual emprego. Fazia um mês que eu trabalhava aqui quando passou o programa. A galera da TV nem sabia que eu estava aqui dentro, foi uma (grata) supresa pra eles. Pra mim já não foi tanto, viu. Mas enfim. A questão é que eu, literalmente de um dia para o outro, me vi exposta na TV aberta. QUE CHOQUE. Eu não sei lidar com esse público, não sei lidar com esse pensamento, não sei lidar com esse conteúdo. Estou aprendendo. Depois de quase um ano, acho que estou começando a entender como as coisas funcionam aqui.

E é o seguinte: tenho altas crises. Não pertenço a esse universo (a não ser como "personagem" de reality show, ou seja, aquela não está nem perto de ser eu). Meus interesses são outros. Meu foco é outro. Minhas referências são outras. Minhas ambições são outras. Só que eu passo tempo demais aqui, quase todo o meu tempo. Chego em casa acabada e querendo dormir, mal tenho tempo pra ler. Durmo com o livro na cara, sabe. Pra ler eu não posso estar morrendo de sono e desconcentração. Ler é meio sagrado pra mim. Sério mesmo, não consigo ler como se estivesse lixando as unhas.

Pois eu estava sofrendo sem um antídoto para toda essa intoxicação. Passava dias em casa vendo dois ou três filmes do Woody Allen consecutivamente, tentando achar algo que me renovasse, será que eu estou sendo suficientemente clara?

Tentei questões existenciais.

Comédias românticas.

Filmes iranianos.

Blockbusters.

Cinema nacional.

Drama.

Álcool.

Nada funcionava.

Vinha apenas um breve alívio. E depois eu voltava ao meu estado de intoxicação por excesso de informação de inconsciente social.

OQUEI. Talvez eu dramatize demais na hora de contar uma história. Vocês vão me desculpar, esse é o meu ofício.

Sei que fui COMPLETAMENTE desavisada à Sessão Comodoro, no CineSesc. Completamente. Me chamaram e eu fui, sem nem saber do que se tratava. Chegando lá, ele avisa, rindo: "te trouxe pra ver um filme totalmente sanguinário, proibido em não sei quantos países na época". Certo. Carlos Reichenbach apresentou a sessão. Antes teve a estréia de um curta, "Ivan", de Fernando Rick, estrelado por meu jovem e formoso amigo André Ceccato. Certo. Eu era a única pessoa ali que não fazia idéia do que estava por vir.

GENTE.

Vocês estão prontos pra ver o trailer? Porque assim, tem sangue, tem loucura, tem tripas, tem mais loucura e psicopatia e humor negro e EU LAVEI A PORRA DA MINHA ALMA COM SANGUE FALSO.

ERA ISSO QUE EU PRECISAVA. Loucura. Loucura criativa e desembestada. Loucura dos outros. Com a minha nós já sabemos que não é bom brincar.

E agora eu quero todos os filmes B da face da terra.

Quero sangue e palhaços alienígenas e zumbis comedores de retina.

QUERO INDICAÇÕES.

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(Atualização: já estou amando Dario Argento, já abracei Joe D'Amato e Mario Bava, tenho uma lista ENORME de filmes para assistir e minha vida é um lugar melhor de se estar no presente momento.


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*