24 de Fevereiro de 2012

um poema quase feito

te vejo bebendo em uma fonte com mãos pequeninas e tristes, não, suas mãos não são pequeninas

são pequenas, e a fonte é na França

de onde você me mandou aquela última carta e eu respondi e nunca mais tive notícias suas. você escrevia poemas malucos sobre

ANJOS E DEUS, tudo em caixa alta, e você

conhecia artistas famosos e a maioria deles

eram seus amantes, e eu escrevi de volta, tudo bem, vá em frente, entre em suas vidas, não tenho ciúme porque nós nunca nos conhecemos. chegamos perto uma vez em New Orleans, meia quadra, mas nunca nos conhecemos, nunca nos tocamos. então você foi com os famosos e escreveu sobre os famosos, e, claro, o que você descobriu é que os famosos estão preocupados com sua fama -- não com a linda garotinha na cama com eles, que os dá aquilo, e então acorda de manhã para escrever poemas em caixa alta sobre

ANJOS E DEUS. sabemos que Deus está morto, eles nos disseram, mas te ouvindo eu não tinha certeza. talvez fosse a caixa alta. você era uma das melhores poetisas e eu disse aos editores, aos caras das editoras, "publiquem-na, publiquem-na, ela é louca mas é mágica, não há mentira em seu fogo." eu te amava como um homem ama uma mulher que nunca toca, apenas escreve, guarda fotinhos. eu teria te amado mais se tivesse sentado em um quartinho enrolando um cigarro e ouvindo você mijar no banheiro, mas isso não aconteceu. suas cartas ficaram mais tristes. seus amantes te traíam. criança, escrevi de volta, todos os amantes traem. não ajudou. você disse que tinha um banco de chorar e era ao lado de uma ponte e a ponte era sobre um rio e você sentava no banco de chorar todas as noites e chorava pelos amantes que te machucaram e te esqueceram. escrevi de volta mas nunca mais tive resposta. um amigo me escreveu sobre seu suicídio 3 ou 4 meses depois. se eu tivesse te conhecido provavelmente teria sido injusto com você ou você comigo. foi melhor assim.

(charles bukowski - minha tradução)


Clara Averbuck é escritora

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Ilustrações: Eva Uviedo

hand made by: SENSO*